O sentimento que eu tive na madrugada do dia 2 de setembro para o dia 3 foi tristeza. Enquanto eu estava concentrada nos artigos de Direito Desportivo, Comercial e Tributário, o pior aconteceu. Foi numa pausa para uma água e uma checada no WhatsApp que surgiu bem na minha frente o fogo no Museu Nacional.
Em um primeiro momento eu pensei em nada, só consegui ficar em choque. Em segundo momento eu segui sem conseguir pensar em nada, só consiguia estar em choque. Em choque com o tudo que perdemos, em choque com o descaso com a nossa história, com a nossa gente, como o nosso povo.

“MATARAM A LUZIA DE VEZ!”

Não vou aqui delimitar culpados por essa lástima ocorrida, não vou dar uma listagem de coisas e pessoas que deveriam ter evitado isso. SIM! EVITADO. Até porque não adianta culpar apenas as autoridades se nós mesmos, cidadãos comuns, não valorizamos a nossa história. Prova disso é a famosa frase “quem vive de passado é Museu” usada de forma pejorativa.
Vim falar do sentimento que fica no coração de uma pessoa que ama história, ama a história brasileira, ama museus, que estuda, que gosta de pesquisa e produção de conhecimento: o sentimento que fica no meu coração.
Fui no Museu Nacional uma única vez, na época que eu ainda não tinha muitos amigos no Rio. Eu estava sozinha. sozinha não, com 20 milhões de itens que contavam a nossa história.
O primeiro e o mais velho de tudo que o Brasil tem estava lá. Estava. ESTAVA.
Aos poucos a gente perde a nossa história, logo nós que já não tenhos uma identidade formada devido a nossa miscigenação agora temos menos ainda. O Brasil, que já não tem uma cara definida, perde o pouco que tem quando perde a sua cultura. Quem é o Brasil? O que é o Brasil? Quem é o Brasileiro? O que faz o Brasileiro?

Não nos resta mais nada e esse nada é tudo o que nos resta.

Em 1978 começamos a perder o que nos fazia com o incêndio do Museu de Arte Moderna do Rio. Passados longos anos, em 2010, as vítimas foram as cobras, aranhas e escorpiões do Instituto Butantã, lá se foi o maior acervo de cobras tropicais do mundo. Desde então, aparentemente, não se aprendeu com a lição e a nossa história começou a ser retirada de nós com uma intensidade que não conseguimos controlar.
2013 foi a vez do Memorial da América Latina e lá se foi o auditório Simón Bolívar. Em 2015 ganhamos um terrível presente de Natal, foi-se o nosso Museu da Língua Portuguesa. O MLP era um dos meus lugares favoritos na minha cidade, São Paulo. Anexo a Estação da Luz, nele tinha a história da Língua Portuguesa e as principais obras escritas na nossa língua pátria (a sorte é que a maior parte já estava digitalizada, um salve para a tecnologia).

Se foi a nossa arte, a nossa ciência, a nossa história.

Quem vive de passado é Museu, mas nós só somos o que somos hoje por causa do passado que o Museu vive, guarda e preserva. Nós somos hoje aquilo, o espelho ou a consequência daquilo que nos trouxe até aqui: o passado. O passado é ainda mais importante que o futuro, ele nos forma para que moldemos o que está por vir. Aquela famosa frase de Chico Xavier de que nós não podemos voltar e fazer um novo começo, mas podemos usar o passado para fazer um novo fim é o que cabe aqui.

Um povo sem passado, é um povo sem história, é um povo sem futuro.

Se foi a nossa história, SE FOI A NOSSA GENTE.