“Se a fase é ruim, não se esqueça do que ouviu de mim: amigo, estou aqui!”

Depois de 9 anos que nos debulhamos em lágrimas com o final de Toy Story 3 e de estarmos conformados com o final da trajetória de Andy e seus brinquedos, é a vez de nos afogarmos com o início da história de Bonnie junto de seus brinquedos (alguns, os mesmos de Andy, como pudemos observar no último filme lançado).

Muitos ficaram estressados com a continuação proposta por Toy Story 4, e eu fui uma dessas pessoas. Mas, agora, parando para pensar, Toy Story significa História de Brinquedo e não A História de Andy com seus brinquedos. Com isso, temos as perspectivas que o brinquedo não é de apenas uma criança, ele perpassa por muitas crianças. Como diríamos no Direito, a função social do brinquedo deve ser exercida. Ou seja, os brinquedos continuaram a ser brinquedos e amados por uma criança.

Essa questão é de suma importância para Woody, um dos protagonistas da saga. No primeiro filme, é ele quem trabalha para convencer o parceiro e novato Buzz de que o mesmo não é um patrulheiro espacial e sim um brinquedo que deve exercer a função de um brinquedo.

No segundo filme, Mineiro tenta convencer os demais parceiros da “Turma do Woody” (Bala-no-Alvo, Woody e Jessie) de que eles deveriam deixar de ser apenas brinquedos e passar a ser um ponto turístico no Japão, admirados através de uma vitrine, com a proposta que era mais benéfico do que, após tempo de uso, ser abandonado por “sua” criança. Teoria rechaçada por Woody, que convence os seus amigos a viverem como brinquedos.

A passagem dos brinquedos de Andy para uma nova criança, então, faz manter vivo o espírito e a mensagem da animação. Por outro lado, essa passagem não foi suficiente para consolidar o universo de Toy Story. A maior questão de todas é: e os brinquedos que sumiram durante a sequência dos filmes como, por exemplo, a amada Betty, que todos nós shippamos com o Cowboy?

Isso é um assunto que trataremos em minutos, antes, voltando à essência do filme, temos a criação de Forky, o Garfinho para nós brasileiros. O rapazito foi criado com material reciclável, pela nova criança protagonista do filme, Bonnie, em seu primeiro dia no Jardim de Infância, ganha a característica de boneco, passa a ser amado e essencial para a vida de Bonnie e conquista a essência de brinquedo. A aceitação não foi tamanha por parte do novo brinquedo, e Woody voltou à sua função do primeiro filme, passou boa parte da trama tentando convencer o novo companheiro de que agora ele não era mais um lixo.

“Os seus problemas são meus também e isso eu faço por você e mais ninguém, o que eu quero é ver o seu bem: amigo, estou aqui!”

Woody, porém, tem que lidar com outra nova situação: é cada vez mais escanteado pela sua nova dona que, inclusive, transfere o distintivo de xerife para sua parceira Jessie. Essas duas questões levam Woody a refletir sobre sua própria existência: Woody, acima de tudo, está ali para garantir o bem da criança que o possui.

Essa nova empreitada de Woody não se limita ao Garfinho, mas também existe a necessidade de restabelecer brinquedos antigos como brinquedos. O Prólogo do filme fala sobre o desaparecimento da nossa amada Betty altamente dramático. Isso pois o clima de amor existente entre Woody e Betty é interrompido por algo maior e mais forte: a função de ser brincado por uma criança.

Nessa perspectiva, os novos personagens da saga interagem de forma objetiva com a proposta da animação. Seja por Duke Caboom, que passa pelo mesmo complexo pelo qual Buzz passou no primeiro filme, seja por Coelhinho e Patinho que pendurados em um parque de diversões como prêmio desejam ser amados por uma criança.

Até mesmo a “vilã” da história, a boneca Gabby Gabby, que vive em um antiquário junto com bonecos de ventrículo (que eu morro de medo, sinceramente) e quer a todo custo a caixa de voz do nosso amado cowboy com o objetivo de conquistar a criança que tanto sonha, é convencida por Woody que o papel do brinquedo é ser amado por uma criança. O roteiro dá uma mãozinha para a antagonista que encontra uma criança perdida, assim como ela, para chamar de sua.

É ao ceder a sua voz para que Gabby Gabby encontre uma nova criança que o ex-Xerife se reconhece: aquele que não deixa um brinquedo morrer.

Após toda a sua trajetória no novo longa-metragem, Woody e a sua nova-antiga parceira, Betty, ele opta por viver diversas aventuras e amores ao lado da companheira que agora tem uma presença mais ativa e forte, inclusive incentivado pela mudança de comportamento e empoderamento feminino (que não por coincidência é dublada no Brasil por Telma Costa, a mesma dubladora de Cristina Yang na série Grey’s Anatomy, a melhor personagem de todas). Woody se despede de seus amigos de anos para que seus objetivos sejam alcançados sempre. E quem sabe um dia ele reencontra seus amigos, seja no infinito, seja além.

No final, estávamos eu e meu amigo Xande, chorando, de emoção e de raiva, e resolvemos tomar um café no Starbucks do Cinema Odeon (aquele que é um dos mais importantes cinemas do Rio de Janeiro). Calados. Olhamos um para o outro e dissemos: “amigo, estou aqui”. Choramos de emoção porque crescemos vendo a saga e a mensagem de que cada um deve seguir a sua essência própria é fantástica. De raiva, pois a separação dos amigos mexeu conosco de uma forma desnecessária, ainda mais quando paramos para pensar que um de nós é de São Paulo e o outro do Rio e o que nos aproximou foi a faculdade, que já está acabando. Enfim, me deu vontade de chorar novamente.
Quantas vezes eu não deixava meus bonecos no chão e no dia seguinte me pegava vendo se eles estavam na mesma posição que eu deixei?

“O tempo vai passar, os anos vão confirmar às três palavras que eu proferi: amigo, estou aqui!”