Teodoro (Leandro Hassum), Flor (Juliana Paes) e Vadinho (Marcelo Faria) – Filme 2017. Direção: Pedro Vasconcelos

 

Depois de anos de espera, a nova leitura audiovisual de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” finalmente chegou às telonas. Com direção de Pedro Vasconcelos (diretor geral do sucessão “A Força do Querer”) e com produção de Marcelo Faria (também ator do filme), a obra foi novamente adaptada após 41 anos da sua primeira montagem cinematográfica e 19 anos depois da sua adaptação para as telinhas.

Como já sabem, sou amante das nossas artes nacionais, mas o que vocês não sabem é que apesar de admitir a grande importância de Jorge Amado para a nossa literatura, seu estilo de escrita nunca foi dos meus favoritos para leitura. Todavia, eu sempre gostei muito de suas releituras para cinema, tv e teatro.

Prova disso é que o filme Dona Flor de 1976 foi um dos primeiros filmes nacionais que eu assisti após ser apresentada às relíquias dessa nossa arte. E encantada eu fiquei com aquilo que me apareceu. Eu também sou apaixonada pela novela Tieta – no ar atualmente no Canal Viva – apesar de ter desistido da leitura. A história dos Capitães da Areia também é uma das minhas preferidas dos anos de Vestibular FUVEST, porém, nunca encerrei a leitura.

Enfim, não estamos aqui para fazer crítica às obras de Amado e sim, falar desse filmão que está de volta para a nossa alegria!

O filme acerta em seguir a ordem invertida e começar com a morte de Vadinho (Marcelo Faria) durante o carnaval de Salvador nos anos 1940, seguido de flashback do encontro de Vadinho e Flor (Juliana Paes) e a vida dos dois após a união. Ainda no início temos o novo casamento da protagonista, dessa vez com o farmacêutico Teodoro (Leandro Hassum) e dando continuidade a história.

Temos que destacar a desenvoltura do elenco para com essa nova montagem. Paes, que já deu vida a outra personagem interpretada por Sônia Braga (Gabriela, 1975 e 2012), está impecável como Flor. A veracidade e a entrega da atriz ficam nítidas desde o primeiro momento – a viuvez -, e, mesmo sendo mais velha do que a personagem, consegue transmitir a jovialidade do seu papel.

Marcelo Faria, que novamente dá sua pele a Vadinho após cinco anos vivendo o personagem nos palcos do Brasil, mostra ter intimidade com a interpretação do boêmio e sua malemolência fica nítida – apesar da vadiagem e machismo serem um tanto quanto suavizados no filme. Inclusive, aparecer nu nas telonas não pareceu um empecilho para o ator.

Leandro Hassum, o novo farmacêutico Teodoro, dá ao personagem o ar caricato típico da interpretação do ator, trazendo leveza e graça ao filme em diversos momentos, apesar do ator se esforçar para manter a seriedade do personagem – o que foge da sua já conhecida carreira no cinema.

Ademais, o elenco conta com Nívea Maria (uma das nossas maiores atrizes), Fabio Lago, Duda Ribeiro (intérprete de Teodoro na mesma montagem que participou Marcelo Faria, falecido recentemente) entre outros grandes nomes.

A fotografia e direção têm sido alvo da crítica. Muitos consideram que os planos do filme estão extremamente elaborados, podendo distrair o público e acabam por compará-lo às produções de TV. Isso não podemos negar, afinal, Vasconcelos é também diretor de TV. Confesso que essa característica do “cheio de detalhes” (que inclusive é relatado por páginas e páginas no livro) é uma coisa que me fascina e creio que seja o que familiariza o público com os personagens, nos aproxima daquilo que vemos, ainda mais quando se trata de uma obra de época como é o caso de Dona Flor. É um prazer analisar de perto a Bahia de 1940 que jamais teremos a oportunidade de conhecer. A direção de fotografia ficou a cargo de Luciano Xavier.

Do meu ponto de vista, e mesmo que se passe nos anos 1940 – repleto de conservadorismo -, é um pecado que tenhamos a violência doméstica extremamente romantizada como acontece no filme.

Todavia, gostei do que vi, ainda mais quando se conhece o estilo de escrita de Amado. Um roteiro soteropolitano que objetiva mostrar os costumes, a linguagem, o modo de se vestir, a culinária e, aquilo que não pode-se deixar de lado quando se trata de Jorge Amado: sincretismo religioso e o Candomblé.

Inclusive uma das cenas mais impactantes do filme, na minha opinião, é quando Flor pede ajuda para se livrar do espírito de Vadinho. Entidades aparecem na tela e com um jogo de luz e sombra impressionam os olhos daqueles que estão assistindo e chega a causar um certo desconforto. Ponto para o filme!

Não deixem de prestigiar essa produção nas telonas! Não deixem de apreciar o nosso cinema nas telonas, é isso que o mantém vivo!

 

Teodoro (Mauro Mendonça), Flor (Sônia Braga) e Vadinho (José Wilker) – Filme 1976. Direção: Bruno Barreto.

 

Teodoro (Marco Nanini), Flor (Giulia Gam), Vadinho (Edson Celulari) – Minissérie, 1998. TV Globo. Direção: Mauro Mendonça Filho.

 

Teodoro (Duda Ribeiro), Flor (Carol Castro) e Vadinho (Marcelo Faria) – Teatro 2008. Direção: Pedro Vasconcelos.