Depois de longos anos na minha lista de livros para comprar, tomei vergonha na cara e adquiri, na Bienal do Livro 2015 – São Paulo, o “Feliz Ano Velho” de Marcelo Rubens Paiva. Porém, após sair de uma lista, ele acabou entrando para outra, a de livros para ler. Na estante ele ficou por 1 ano, até eu tomar vergonha na cara (de novo) e ler. E li.

Demorei 3 semanas para terminar a leitura e não é pelo livro ser demorado e cansativo, pelo contrário. O livro é espontâneo, dinâmico, fluido e intenso. É uma leitura rápida, porém não superficial. Quando digo rápida me refiro à linguagem. Paiva se utiliza de uma linguagem coloquial. Assim como no livro de Lázaro Ramos (já falado neste site), parece que o autor está ali, bem na nossa frente, contando tudo.

A situação de proximidade com o leitor é tão real que a linha temporal do livro não é rompida, mesmo com as digressões realizadas por Paiva – salvo engano, Machado de Assis se valeu, e muito, de digressões em suas “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Em Feliz Ano Velho, Marcelo conta o sua nova situação: tetraplegia ocasionada pela lesão da 5ª Cervical aos 20 anos, quando mergulhou num lago raso (“Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiim”). Durante essa narrativa ele nos mostra momentos da vida dele até o então ano de 1979 – ano da publicação do livro.

“Adeus, Ano Velho, feliz, Ano-Novo

Não tinha o mínimo sentido. As lágrimas rolaram, chorei sozinho, ninguém poderia imaginar o que eu estava pensando. Nada fazia sentido. Todos sofriam comigo, me davam força, me ajudavam, mas era eu que estava ali, deitado, era eu que estava desejando a minha própria morte. Mas nem disso eu era capaz, não havia meio de largar aquela situação. Tinha que sofrer, tinha que estar só, tão só que até meu corpo me abandonara. Comigo só estavam um par de olhos, nariz, ouvido e boca.

Feliz Ano Velho, adeus, Ano-Novo”

Essas histórias envolvem seu relacionamento com o pai, ex-deputado Rubens Paiva – desaparecido na Ditadura Militar, fato que tomei por conhecimento nas aulas que tive sobre o Regime ainda no Ensino Médio -, a convivência com as irmãs, a força da mãe (D. Eunice), os amores (pelos amigos, pelas meninas e pela música), o acidente, a possibilidade de reabilitação, a fisioterapia, a volta para casa e a redescoberta do mundo agora sobre outra perspectiva.

“Liberte o Ivan Lins que há dentro de você”

Eu não quero explanar muito sobre o livro porque é extremamente difícil falar dele sem encher de citações. Eu adoraria que todos lessem porque é de uma profunda reflexão, não só sobre a vida de Marcelo, mas sobre nós mesmos: sobre o que somos e para quem somos.

Fiquei extremamente feliz de saber que eu e Paiva dividimos o amor pelo mesmo time – Corinthians – e o carinho por Lídia Brondi (apesar de carinhos diferentes).

“Não sejamos tão egocêntricos a ponde te querer, quando estamos mal, que esteja todo mundo péssimo”

Ademais, venho dizer que, felizmente, o livro foi levado às telonas (dirigido por Roberto Gervitz) e aos palcos (dirigido por Paulo Betti) – informo que não assisti ao filme e nem à peça, logo não posso dar o meu parecer sobre ambos.

“eu jamais poderia imaginar que, ao mergulhar, encontraria do fundo de um lago meu verdadeiro destino”

FOTO: divulgação Livraria da Travessa