Uma jovem descobre que está grávida. Sente que seu corpo e seu espírito ainda não estão preparados para a gravidez. Sabe que seu parceiro, mesmo que deseje apoiá-la, é tão jovem e despreparado quanto ela e que ambos não terão como se responsabilizar plenamente pela gestação, pelo parto e pela criação de um filho. Ambos estão desorientados. Não sabem se poderão contar com o auxílio de suas famílias (se as tiverem). Se ela for apenas estudante, terá que deixar a escola para trabalhar, a fim de pagar o parto e arcar com as despesas da criança. Sua vida e seu futuro mudarão para sempre. Se trabalha, sabe que perderá o emprego, porque vive numa sociedade onde os patrões discriminam as mulheres grávidas, sobretudo as solteiras. Receia não contar com os amigos. Ao mesmo tempo, porém, deseja a criança, sonha com ela, mas teme dar-lhe uma vida de miséria e ser injusta com quem não pediu para nascer. Pode fazer um aborto? Deve fazê-lo?

Um pai de família desempregado, com vários filhos pequenos e a esposa doente, recebe uma oferta de emprego, mas que exige que seja desonesto e cometa irregularidades que beneficiem seu patrão. Sabe que o trabalho lhe permitirá sustentar os filhos e pagar o tratamento da esposa. Pode aceitar o emprego, mesmo sabendo o que será exigido dele? Ou deve recusá-lo e ver os filhos com fome e a mulher morrendo?

Um rapaz namora, há tempos, uma moça de quem gosta muito e é por ela correspondido. Conhece uma outra. Apaixona-se perdidamente e é correspondido. Ama duas mulheres e ambas o amam. Pode ter dois amores simultâneos, ou estará traindo a ambos e a si mesmo? Deve magoar uma delas e a si mesmo, rompendo com uma para ficar com a outra? O amor exige uma única pessoa amada ou pode ser múltiplo? Que sentirão as duas mulheres, se ele lhes contar o que se passa? Ou deverá mentir para ambas? Que fazer? Se, enquanto está atormentado pela decisão, um conhecido o vê ora com uma das mulheres, ora com a outra e, conhecendo uma delas, deve contar a ela o que viu? Em nome da amizade, deve falar ou calar?

Esses três exemplos foram retirados da obra “Convite à Filosofia” de Marilena Chauí (2000), neles a autora nos convida a pensar e refletir sobre a existência ética e de como nossos sentimentos e ações manifestam nosso senso moral; e provoca questões do tipo: temos o direito de interferir nas decisões/escolhas do outro? O que fazer? Qual a ação correta? Questões essas que nos põem diante de outro conflito –, a consciência moral. É ela que nos faculta a liberdade de escolher e decidir o que fazer diante de um impasse, e mais importante, que justifiquemos para nós mesmos e para os demais as razões pelas quais decidimos, e, convictos, assumamos as consequências de nossas escolhas.

Mas será que somos mesmo livres para escolher nosso caminho? Ou existe uma força que exerce influência sobre nosso destino, o que implicaria, segundo esse pensamento que não estaríamos no controle de nossas ações, e sim, destinados à algo. Mas, que destino é esse? Será que nascemos para cumprir um propósito, ou temos a liberdade de escolher nosso próprio caminho e construir nosso propósito na busca de um sentido para a vida?

Indagada sobre o que dizer para uma pessoa que nasceu deficiente, ou tem uma doença genética, ou ainda, foi vítima de uma intercorrência no parto que provocou uma paralisia cerebral; e se essas situações poderiam ser escolhas?

A resposta foi: o pensamento filosófico não contempla questões de natureza genética para formular respostas a comportamentos intencionais; mas dentre tantas outras coisas e, em específico, trata da comiseração como modo de ser do indivíduo que se vitimiza ao culpar o outro por seus infortúnios, ou de culpar as circunstâncias por suas frustrações e, insatisfeitos, usam sem reflexão a máxima de Sartre (1905-1980), “o inferno são os outros”; não assumindo nenhuma parcela de responsabilidade pelos atos praticados, ou mesmo por sua inércia. Por isso, o pensamento filosófico é incômodo, não aceitando respostas prontas e fechadas. Cautela é importante, pois não existem respostas simples para problemas complexos. Não vivemos em um mundo dicotômico, onde as respostas variam apenas entre o sim e não, como muitos ainda, tentam incutir como padrão a ser seguido. O talvez, acaso, quiçá, por ventura, podem ser alternativas possíveis.

O pensamento filosófico é um conjunto de conhecimentos dinâmico, ele é uma forma de observar e pensar o homem em relação com o mundo, busca compreender os fatos e seus desdobramentos para além da aparência imediata. A Filosofia compreende tanto a indagação filosófica propriamente dita, quanto aquilo que hoje é chamado de conhecimento científico. Antonio Carlos Olivieri, do Portal da Educação, traz uma síntese sobre o conceito de filosofia muito interessante, ele aduz: “A filosofia é um jogo irreverente que parte do que existe, critica, coloca em dúvida, faz perguntas, abre a porta das possibilidades, faz entrever outros mundos e outros modos de compreender a vida”.

Portanto, o pensamento filosófico também pode ser compreendido como uma maneira de se posicionar diante da vida, um ato político. Ele é endereçado a todos que desejem ter o pensamento livre de rótulos, de dogmas, de determinismos, de causa e efeito como resposta única para todas as dimensões da vida. A Filosofia, assim como a Psicologia antes de qualquer coisa pensa nas variáveis que afetam a conduta humana, que constituem fatores como: personalidade, percepção, fatores ambientais, motivação, estado de saúde, sociais e econômico.

A Psicologia e a Filosofia são disciplinas e formam um conjunto de conhecimentos científicos que oferece subsídios para melhor entender a natureza humana e, consequentemente, sua conduta. Mas elas não oferecem 100% de controle sobre os eventos, porque como toda ciência, elas trabalham com probabilidades, uma estimativa de um evento aleatório ocorrer, como as Leis de Mendel, que explicam o mecanismo da transmissão hereditária passada de geração para geração. Porquanto, escolhas e renúncias estão na dimensão do ato – o exercício da capacidade de agir, ou o seu resultado, a ação.

“Nunca reclame de sua vida, ela é o resultado das escolhas que você fez”

Nesta frase está contida uma reflexão com base no pensamento filosófico existencial que descreve um sujeito que pode ser capaz de eticamente pensar sobre a própria consciência e sobre o meio em que está inserido; existindo e refletindo sobre suas possibilidades de escolhas e motivações. Alguns podem questionar se de fato a vida é o resultado das escolhas feitas. E apenas eles podem responder a essa questão.

Todos os exemplos descritos no início deste artigo sugerem que o nosso senso moral e a consciência moral são ativados por valores como: justiça, integridade, generosidade, honradez, espírito de sacrifício, etc. Bem como os sentimentos produzidos por esses valores como: admiração, medo, dúvida, vergonha, culpa, remorso, contentamento, cólera, amor. Sentimentos esses, que resultam nas decisões que guiam à ações com consequências para nós e para os outros.

Você até pode escolher viver segundo a letra da música de Zeca Pagodinho “Deixa a vida me levar, vida leva eu”; mas compreenda que o resultado de suas escolhas e renuncias, é particular e está intimamente associado a um conjunto bio-psico-social-espiritual, dimensões concretas e subjetivas indissociáveis para a compreensão de como o ser humano se relaciona com o mundo; mas as suas escolhas são um ato intencional só seu, mesmo tendo um interesse direcionado para uma outra pessoa.

E por fim uma lição que Kant (1724-1804), nos legou “Só podemos, portanto, falar em moralidade se considerarmos que o ser humano é um ser livre. É essa liberdade que lhe confere dignidade”. Kant também nos alerta que há limites para a razão humana, limites esses, que nos impedem de ver além, de entender algumas questões de caráter universal como: o surgimento do Universo, a existência de Deus, de onde viemos, para onde vamos, há vida após a morte? Essas são questões que a razão não pode responder.