Estamos no mês que se comemora o “Dia dos Namorados” no Brasil, 12 de junho, e nada mais temático do que escrever sobre o amor e seus amantes – consumidores de amor -, mas como poderia eu, amante dos clássicos, não introduzir um mito grego nesse artigo que pretende falar de amor e seus enamorados!

Antevendo os questionamentos sobre misturar mitos gregos em discussões atuais, devo, claro, um esclarecimento: os mitos nos ajudam a entender as relações humanas e guardam em si a chave para o entendimento do mundo. Segundo Paula P. Santos, do site infoescola, “O mito surge a partir da necessidade de explicação sobre a origem e a forma das coisas, suas funções e finalidade, os poderes do divino sobre a natureza e os homens. Ele vem em forma de narrativa, criada por um alguém que possuía credibilidade diante da sociedade, poder de liderança e domínio da linguagem […]”. A mitologia grega, está repleta de lendas históricas e contos sobre deuses e deusas, batalhas épicas, heroísmo e jornadas ao mundo subterrâneo, etc., que nos remetem à natureza de nós mesmos. Veja a lenda de Narciso, um belíssimo rapaz que ignora todas as moças e se apaixona por si mesmo… Quem de nós já não esteve em um relacionamento assim? Ou o contrário, o outro ama demais e nos sufoca.

A Psicologia vem estudando as relações tóxicas desde Freud e sua obra introdutória. Sobre o narcisismo: Uma introdução, texto de 1914. E não parou mais desde então. Esse é um assunto que tem combustível infinito para queimar… e ao contrário do desabastecimento originado pela greve dos caminhoneiros em 21 de maio, não precisamos de mediadores para o transporte de amor, desamor, ódio, raiva, paixão, lágrimas, ideação e toda sorte de emoções relacionadas a essa intrincada teia de sentimentos derivados do Amor.

Voltemos ao Mito de Narciso e sua versão mais conhecida que está no Livro Metamorfoses, cujo autor é Ovídio (43 a.C. a 18 d.C.). Narciso, filho do deus-rio Céfiso e da ninfa Liríope, era tido como uma das mais belas criaturas existentes, e sua mãe, sabendo que não poderia haver competição com a beleza dos deuses do Olimpo, preocupada, buscou o oráculo Tirésias para saber se seu belo filho teria vida longa, ao que o oráculo responde que sim, desde que não viesse a comtemplar sua imagem; em outras palavras, Narciso foi abençoado com uma beleza rara, mas privado de vê-la. Quando adulto não tinha interesse por nenhuma das moças que o rodeavam. Uma delas a ninfa Eco, que nutria uma paixão não correspondida por ele, não se conformou com a indiferença de seu amado, e afastou-se amargurada e infeliz para um lugar deserto onde definhou em agonia até a morte; somente seus gemidos de amor eram ouvidos de longe (seus ecos).

A partir dessa síntese do mito de Narciso, podemos analisar a seguinte situação: Narciso era incapaz de modular a resposta afetiva de acordo com a situação existencial, indicando rigidez do indivíduo na relação com o outro e/ou com o mundo. Em Psicopatologia, segundo Dalgalarrondo, chamamos de Hipomodulação do afeto, isto é, Narciso, não estava nem aí para ninguém. É claro que estou fazendo uma releitura com uma licença poética do mito para os dias de hoje; como um rapaz tão belo, com pais diligentes poderia ser tão alienado sobre os assuntos do coração e do amor? Existem muitos Narcisos por aí, sem consciência de seus estados as vezes patológicos, e em outros com absoluta consciência.

Vejamos alguns indícios de um relacionamento patológico ou tóxico; um indivíduo com baixa autoestima, que necessita da aprovação do outro em todas as dimensões de sua vida, mostra-se sempre inseguro, carente de atenção e afeto, que demanda cuidados dia e noite, merece uma atenção especial, pois essa fragilidade pode no princípio criar um comportamento de cuidado com o ser amado, mas com o tempo pode criar correntes e ancorar você em uma ilha isolada do continente. É assim que os dependentes emocionais agem; com medo de serem abandonados fazem qualquer coisa para impedir o fim do relacionamento, inclusive afastar o ser amado de seus amigos e familiares, seus “inimigos” diretos. Oriundos muitas vezes de lares desajustados, onde suas necessidades de afeto não foram satisfeitas, tentam suprir essa necessidade através de outra pessoa, sufocando-a de atenção e mimos; quando confrontada com o fim do relacionamento, podem chantagear o ser amado até mesmo com a frase “eu não consigo viver sem você”, denotando um desajuste e um padrão de reações emocionais mais intensas que a situação requer.

Vamos nos deter um pouco mais nessa personalidade que “suga a energia vital” do ser amado. Transcrevo a seguir uma pequena parte do livro de Kevin Dutton, A Sabedoria dos Psicopatas, 2018, onde nos dá a clara dimensão do oceano que estamos nadando: “Mas eu também conheci psicopatas que, longe de devorarem a sociedade por dentro, servem, por meio de atitudes calmas e da capacidade de tomar decisões difíceis, para enriquecê-la: cirurgiões, soldados, espiões, empreendedores – e, ouso dizer, mesmo advogados”[…] “Não importa quão bom você seja. Não deixe que notem você”, aconselhou Al Patino como dono de um grande escritório de advocacia no filme O Advogado do Diabo.[…] torne-se pequeno. Seja o caipira. O aleijado. O nerd. O leproso. O esquisito. Olhe para mim – eu fui subestimado desde o início”. Al Patino interpretava o Diabo”. Kevin Dutton é um renomado psicólogo da Universidade de Oxford e membro da Sociedade Real de Medicina na Inglaterra, e discorre nesse genial livro, sobre como podemos aprender com a sabedoria dos psicopatas e que em algum grau podemos possuir tendências psicopáticas. Mas não se assustem; há mais ganhos em identificarmos essas tendências do que perdas. Veja o caso do amor dependente por exemplo, ser frio o suficiente para romper com um relacionamento tóxico é uma habilidade que podemos aprender e nos beneficiarmos.

A vida afetiva ocorre sempre em um contexto de relações do eu com o mundo e com as pessoas, variando de um momento para o outro na medida em que eventos e as circunstâncias da vida se sucedem. A afetividade caracteriza-se particularmente por sua dimensão de reatividade (Dalgalarrondo, 2000). Ou seja, para haver relação é preciso um pacto entre duas pessoas em sintonia com essa emoção, para a ação de amar de um, haverá à reação de amar do outro; essa é a dimensão de reatividade da qual o autor fala.
Talvez tenha sido essa a incapacidade da ninfa Eco, de irradiar de modo adequado seu afeto e transmitir a Narciso todo seu amor, que por sua vez, era incapaz de sintonizar afetivamente com o outro e/ou mundo. Lembra da rigidez afetiva? Narciso não desejava nada e ninguém, estava vazio de sentimentos, não entendia o que eram até o dia depois de uma caçada, quando se debruça na fonte de Téspias para se refrescar, e vê seu rosto refletido nas águas e se apaixona completamente pela própria imagem. Narciso viu nas águas o ideal de si mesmo. Apenas um reflexo de sua beleza, sua aparência, a superficialidade, o verniz social que nos reveste para interagirmos civilizadamente. Narciso, não conseguiu aprofundar seu olhar para dentro de si, quando ainda tinha tempo, quando não era tomado pela distração do mundo fútil; sem se dar conta ele cai nas águas da fonte e morre afogado.

Também nós, estamos tomados pelas distrações do mundo tecnológico; posso criar um paralelo entre a fonte de Téspias, onde Narciso se desliga do mundo para mergulhar em seu reflexo, e os tablets, ipads, ipods, notebooks, smartfones, fontes de consumo de si mesmo. Quantos relacionamentos começam e terminam por meio eletrônico? Quantos casais estão sintonizados nas necessidades um do outro? Quantas pessoas podem dizer que reconhecem as micro expressões de tristeza, surpresa, nojo, indiferença, raiva, alegria de seus pares? Será que estamos mesmo em uma relação? Ou como Narciso, estamos absortos em nós mesmos que apáticos, apesar de sabermos a importância afetiva que tal experiência poderia nos proporcionar, não valorizamos o outro e na sequência nos afogamos?

O Mito de Narciso é tão interessante para a Psicologia, quanto para entendermos as relações humanas em seu cotidiano. A título de informação, a flor de Narciso é também dotada de beleza singular, no entanto, é narcótica e estéril.