A depressão seria analogamente descrita como um buraco negro, que se alimenta utilizando a força de sua gravidade para sugar toda a energia vital do indivíduo que padece dessa doença. Não há escapatória para a força que ele exerce, assim é a sensação da depressão; o sujeito sente sua luz se apagando, se desintegrando da realidade que o cerca. Só há escuridão, vazio e um turbilhão de pensamentos obscuros, aterradores e a sensação de ser incapaz de ter novamente o controle sobre suas emoções. De acordo com a física clássica, um buraco negro é uma região do espaço da qual nada, nem mesmo partículas que se movem à velocidade da luz, podem escapar, pois a sua velocidade (da luz) é inferior à velocidade de escape desses corpos celestes infinitamente densos.

Escolhi essa analogia para abordar a depressão como tema desse artigo, por ser clara, objetiva e de fácil assimilação para um tema tão complexo, que torna necessária a interseção de várias disciplinas e saberes. Portanto, outros pontos de vista, como o filosófico, médico, psicológico, antropológico, o artístico e o sociológico, são necessários para a descrição de uma condição clínica que, em muitos casos, por sua cronicidade, leva muitos indivíduos ao ato capital de tirar a própria vida. Vou usar a princípio um recorte filosófico para enquadrar a depressão como tema pertencente a uma dimensão subjetiva, idiossincrática e abstrata, que para ser entendida deve ser descrita utilizando uma linguagem metafórica e com alegorias. Porque esse universo é tão implausível para aquela parcela da população abençoada que mesmo com as turbulências a que estão expostas não foram afetadas pela depressão.

Muito já foi dito sobre a doença depressão, receio que continuaremos a falar, pesquisar e escrever sobre esse fenômeno universal e invisível muito próprio das doenças mentais, que está levando as pessoas a um colapso físico e emocional. Existem diferentes tipos de depressão, alguns por motivos orgânicos/bioquímicos e outros por motivos externos/sociais. Mas a depressão não é o mal do século 21 e muito menos está relacionada como causa única do efeito caótico da tecnologia em nossas vidas, das exigências acadêmicas, profissionais, sociais, afetivas; ela não é o demônio da modernidade como muitos escritores a têm posicionado em nossa época. Ela está entre nós há milênios sob o disfarce de muitos nomes como melancolia, possessão, desinteresse pelo mundo externo, timidez extrema, excentricidade, ou mesmo loucura.

Hipócrates de Cós (460 a.C. – 377 a.C.), considerado pai da medicina ocidental já fazia uma correlação entre o desequilíbrio humoral, ou seja, os fluídos corporais, como a bile negra e a melancolia. Foi a partir de seus estudos que o viés da superstição que rondava o “diagnóstico” da doença foi substituído pela biologia. Foi Hipócrates à 500 a.C., que descreveu que a melancolia produzia sintomas como insônia, falta de apetite, desânimo, comportamento agressivo, podendo levar ao suicídio. Todos esses sintomas muito similares aos associados hoje com a depressão. “Os homens deveriam saber que somente do cérebro vem as alegrias, o prazer, o riso, a preguiça, os sofrimentos, a dor, a tristeza e as lamentações” Hipócrates.

Portanto, a depressão, assim como uma planta parasita, chega discreta, cresce devagar, e silenciosamente vai tomando conta do tronco da árvore, sugando sua seiva, enfraquecendo-a de dentro para fora e podendo levá-la à morte dependendo de seu grau de infestação. O Biólogo Rodrigo Polisel da Universidade de São Paulo (USP), relata que essa manifestação se dá, por conta de um ambiente desequilibrado e fragmentado. Metaforicamente como a árvore, o sujeito que padece dessa doença não percebe que está depressivo até ser tarde demais. Veja como o uso da linguagem metafórica pode estabelecer um diálogo de proximidade entre dimensões distintas à das emoções, sentimentos e percepções com a ciência médica, que busca respostas concretas e utiliza um modelo diátese – vulnerabilidade genética (herdada) e estresse ambiental, onde ambos devem interagir para produzir um transtorno. Pontos de vista que convergem para um homem como parte integrante do ambiente, visto em sua totalidade bio-psico-social.

Relatos de pessoas que passaram por esse sofrimento estão sempre repletos de metáforas que remetem a abismos, penhascos, escuridão, sentir-se sufocando, afogando-se, desconectando-se da vida, etc. O que extraímos deles é o entendimento que os padrões emocionais socialmente aceitos e/ou impostos pela maioria, são arbitrários para explicar o que acontece com indivíduos que sofrem de maneira desproporcional em relação a eventos que supostamente são irrelevantes. Como deprimir após a perda de um animal de estimação por exemplo. Como mensurar a dor do outro? É hierarquicamente mais importante e aceito que se possa deprimir pela perda de um ser humano, mas, por um animal, não. Definições como essas são proporcionalmente desnecessárias e prejudiciais para quem está paralisado por uma dor que a língua se recusa nomear; que em face de nosso referencial narcísico, muitos não percebem que as limitações, vulnerabilidades e emoções do outro são diferentes, mas, não são menores ou ilegítimas.

As contribuições das ciências biológicas com o surgimento da Psiquiatria, dirimiu o caráter subjetivo da melancolia; assim ela não mais foi vista como uma organização idiossincrática construída em torno da angustia da existência. O desafio nesse momento da história, era romper o paradigma do campo sagrado e mitológico, de onde as respostas emergiam para todas as doenças. O discurso médico científico embasado em um método rigoroso na busca por respostas concretas acerca dos fenômenos patológicos, foi o divisor “de águas” para o distanciamento entre o sagrado e o desconhecido. A neurociência, entre outras coisas, lançou luz sobre o neurotransmissor Serotonina estar particularmente implicado na depressão e transtornos correlatos.

Mas, como conter o dano e como diagnosticar precocemente? Essa é uma decisão difícil e pessoal, pois está intimamente relacionada ao desejo do sujeito; ele precisa estar conectado consigo para observar-se, conscientizar-se de que há algo errado em sua percepção do eu. A percepção é um processo de seleção, organização e interpretação de nossas sensações a partir da captação do fenômeno externo ou interno por nossos cinco sentidos, quais sejam, visão, olfato, paladar, audição e tato, que fazem parte do sistema sensorial, responsável por enviar as informações captadas para o Sistema Nervoso Central, que por sua vez, analisa as informações e as processa e arquiva no sistema de memória. Se houver uma ruptura no fluxo de informações, ou rebaixamento das funções cerebrais, elas serão refletidas no comportamento do indivíduo. Por isso, ter uma rede de apoio como família, amigos e colegas de trabalho é de suma importância para detectar alguma mudança de comportamento ou humor que muitas vezes não se torna evidente para o sujeito.

A depressão hoje, é descrita pelo DSM-5 como um transtorno do humor, ela se manifesta de várias maneiras, mas há um consenso entre as pessoas que rompem a barreira do silêncio e afirmam: “Ela é a solidão dentro de nós que se torna manifesta e destrói não apenas a conexão com outros, mas também a capacidade de estar consigo mesmo” Andrew Solomon.

A depressão age como uma tirana que subtrai toda e qualquer liberdade de ação, reflexão e interação do sujeito com o mundo externo. Ela coloca o sujeito sob sua obediência e servidão, alienando-o da realidade e de si; ela é um veneno demasiado doce que se toma de forma irracional.

Além dos antidepressivos e ansiolíticos específicos, o amor, o carinho, o acolhimento e o respeito são auxiliares poderosos no tratamento das pessoas que sofrem com essa dor desmedida; ao menor sinal dos sintomas acima descritos procure ajuda profissional de um Psiquiatra ou Psicólogo.

Referências:
Santa Clara, Carlos José da Silva. (2009). Melancolia: da antiguidade à modernidade – uma breve análise histórica.
Andrew Solomon. O Demônio do Meio-Dia: uma anatomia da depressão, 2018.
Jornal da USP(Visão sobre depressão sofreu transformações ao longo da história), 18/01/2017.
OPAS/OMS Brasil – Depressão
http://www.filosofia.com.br