Doença mental ou possessão demoníaca?

Houve um tempo em que ter um entendimento, mesmo que pequeno por intuição, por experiência ou adquirido por antepassados, como por exemplo, identificar plantas para fins medicinais, ter conhecimento sobre os benefícios das ervas para o tratamento de enfermidades físicas como dores de cabeça, cólicas, urticárias, diarreia, dor de dente, etc., sem o consentimento das instituições e autoridades da época, era uma faca de dois gumes; como diz o dito popular, em outras palavras, é quando algo que o sujeito tenha feito de boa vontade, tem o efeito contrário ao esperado, ou mesmo um efeito prejudicial. Esse tempo era a idade média, mais precisamente na metade do século XV, onde deu-se o início à caça às bruxas, e, seu apogeu nos séculos XVI e XVII. Segundo Natália Petrin, a caça às bruxas aconteceu principalmente em Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Alemanha (e em algumas colônias na América). A perseguição acontecia devido à crença de que era necessário punir bruxas que supostamente praticavam rituais e curandeirismo. Estima-se que entre os séculos XV e XVIII, tenham acontecido entre 40 mil e 100 mil execuções por bruxaria.

Segundo Leandro Vilar (2017), desde que a Igreja Romana passou a expandir seus domínios e influência sobre a Europa a partir do século IV, o clero esbarrou em diferentes práticas mágicas e religiosas, pois a Europa era um continente pagão (ainda não cristianizado), mas à medida que o tempo foi passando e o processo de cristianização avançando de forma ora pacífica, ora agressiva, levou muito tempo para que as pessoas abandonassem seus hábitos e suas crenças pagãs. Em vários locais do continente, as pessoas ainda prestavam cultos aos antigos deuses, realizavam ritos, ofereciam oferendas e sacrifícios (LE GOFF, 2007; GINZBURG, 1991 apud VILLAR, 2017).

A partir desses dois parágrafos podemos dar início às investigações sobre a pergunta lançada neste artigo: Doença Mental ou Possessão Demoníaca? Especificamente sobre esse tema da caça às bruxas que trago para ilustrar e desenvolver o raciocínio, e desvelar o pano de fundo que está por trás desses comportamentos, irei traçar uma linha temporal até os dias de hoje. É claro que me deterei em um fenômeno único e muito resumidamente, para sinalizar após mais de 600 anos, que o mundo não mudou muito em se tratando dos processos relacionais e sua transmissão de valores dentro de um grupo social.

Sobre o preconceito e julgamentos apressados sem uma base científica e um olhar humanizado para o diferente, a objetificação das ideias abstratas se transformam em imagens concretas; como acreditar que bruxas existem e que são associadas ao demônio. Como muito bem analisado por Foucault (1926-1984), em sua obra “A Ordem do Discurso” (1970), durante os séculos XV a XIX, o discurso sobre a loucura era usado como um instrumento de poder, isolamento e punição. “Existe em nossa sociedade outro princípio de exclusão: não mais a interdição, mas uma separação e uma rejeição. Penso na oposição razão e loucura” (FOUCAULT, 1970, p.10).

A loucura foi conceitualizada como o oposto à razão, à perda do juízo, desordem do pensamento, domínio das paixões, devaneio do espírito e tantos outros adjetivos que colorem essa doença que aflige o homem desde tempos imemoriais. Um discurso que apesar de antigo, foi sendo ressignificado e o seu sentido atualizado ao longo da história, tanto por pessoas comuns quanto pelos próprios doutores da lei. Discurso esse com uma carga negativa e pejorativa em relação ao sujeito portador da doença, como sendo um perigo para a sociedade. Acreditava-se que a doença tinha relação com o sobrenatural, que pessoas com delírios eram “tomadas” por espíritos e seus tratamentos incluíam o exorcismo, para expulsar os demônios e diversos rituais religiosos desenvolvidos para livrar a vítima (e não o doente) dos maus espíritos. Identificam alguma relação com rituais de bruxaria ou paganismo?

E nada é mais poderoso e perigoso do que a crença; acreditar cegamente e radicalmente em algo ou alguém, pode muitas vezes terminar em perseguições, tragédias, guerras, genocídios… caça às bruxas! Na Europa da época, havia a crença de que as bruxas e curandeiros eram auxiliados por entidades sobrenaturais conhecidos como espíritos familiares, que assumiam formas de animais ou seres humanos, reuniam-se em rituais noturnos em volta de fogueiras e adoravam o diabo (as vassouras voadoras, as verrugas, o chapéu pontudo, entre outras fantasias foram um acréscimo dos irmãos Grimm e Walt Disney).

Por outro lado, haviam os indivíduos que acreditavam em vários deuses, na natureza, na influência das estrelas, da lua, dos espíritos ancestrais, crenças essas, passadas de geração em geração, como as ervas em forma de chás e unguentos, utilizados para o alívio de algumas doenças; era uma forma de conhecimento resultante do senso comum baseado puramente na experiência e sem a necessidade de comprovação científica –, e que chamamos de conhecimento empírico.

Até este ponto temos crenças divergentes, certezas absolutas em lados opostos. De um lado o pensamento Teocêntrico medieval de cunho religioso, segundo o qual Deus é o centro do universo, do outro o pensamento livre onde a natureza é uma expressão máxima da bondade dos deuses para com as pessoas, pensamento naturalista e sem cunho religioso (Deus está/é a natureza). Para compreender melhor esse conflito de opiniões, que resultou na perseguição e morte de milhares de pessoas e no movimento que ficou conhecido como “Caça às Bruxas”, precisamos entender o pano de fundo desses comportamentos. Começando pela crença e suas variáveis, a crença é o estado psicológico em que um indivíduo acredita piamente que há uma certeza sobre algo, uma convicção de que aquilo é real e verdadeiro. Perceba que há um componente psicológico e subjetivo no que tange à crença, o sujeito faz uma avaliação pessoal do assunto com um componente emocional, ele crê! Aqui temos a variável individual, onde o sujeito acredita, confia, tem certeza, tem opinião e convicção sobre algo. No contexto social a crença, assim como valores, ideias e costumes são compartilhados e aceitos pela maioria. No contexto religioso os crentes creem em um conjunto de princípios e dogmas que formam sua fé, aqui há uma conexão de pessoas que comungam da mesma crença. Todas essas variáveis do fenômeno crença têm algo em comum: elas não precisam de comprovação científica, não há contestação, basta que o sujeito acredite.

O pensamento mágico é produzido pela psique ou é induzido por doenças, ou ainda, por influência religiosa? Para tentar responder a essas perguntas, é preciso contextualiza-las voltando ao Velho Continente (Europa) 600 anos atrás. Imagine uma mulher com 30 anos, cabelos ruivos, solteira, tendo apenas gatos por companhia, ela é uma curandeira não oficial de seu Vilarejo, sua casa é um pouco afastada da maioria e ela tem por hábito, sair nas noites de lua cheia e voltando com um saco ou cesta cheios pela manhã. Costuma se alimentar de maneira natural, como por exemplo de uma mistura de manga com leite. Há 600 anos atrás seria suficiente essa descrição para apontar essa mulher como uma bruxa? Até pouco tempo atrás já seria, e, aqui mesmo no Brasil!

A desinformação associada com preconceito e crenças, produz medo e gera a violência que historicamente está circunscrita na evolução do ser humano, não há um capítulo de nossa história civilizatória que não esteja manchada por sangue inocente. “Uma forte corrente de opinião colocou, de maneira forçada, as causas e o tratamento dos transtornos psicológicos no domínio do sobrenatural. Durante o século XIV, religiosos e autoridades laicas apoiaram as superstições populares, e a sociedade passou a acreditar na realidade do poder dos demônios e das bruxas” (BARLOW; DURAND, 2015).

E assim, a forte tendência à concordância associada a uma crença ou opinião que viesse de alguém que estava acima na hierarquia, já era motivo suficiente para criar uma categoria de exclusão, uma ferramenta de controle social para designar, estigmatizar e marginalizar as crenças, práticas, ideias e comportamentos do Outro. Ramalho (2016), define o Outro como o inimigo, o estrangeiro, o herege, etc., ou para estigmatizar crenças e práticas não aceitas, de forma geral. O autor vai além em sua reflexão, quando conclui que “essa narrativa serve não só para estigmatizar um oponente, mas, principalmente, para definir por contraste ao Outro a própria identidade cultural, religiosa, social, étnica, etc., ou seja, para definir o Eu. E, obviamente, na oposição ao Outro e seus estigmas, a identidade do Eu é definida de forma positiva” (RAMALHO, 2016, p.1).

O que temos em comum a esses fatos históricos é o medo e a rejeição ao diferente, sendo utilizado como um instrumento de dominação e exclusão de um grupo sobre o outro. O preconceito se construiu sobre essas bases e se fortaleceu com o discurso de opiniões preconcebidas (crenças) sobre determinado grupo ou pessoas (as bruxas, curandeiros e loucos). É a partir deste estado psicológico em que o indivíduo acredita ser superior ao outro, que se dá o comportamento discriminatório, que é a ação baseada no preconceito ou racismo, onde o indivíduo/grupo recebe um tratamento injusto apenas por pertencer a um grupo, categoria, classe ou etnia diferentes.

Em uma analogia, a bruxaria, a loucura, a possessão e a doença mental, estão, como Foucault (1970) aduziu, em uma categoria de exclusão e não mais de interdição. É como dizer –, separo a razão da loucura e rejeito o sujeito, excluo-o do grupo social. Aqui me permito um salto no tempo para os dias de hoje; os grupos de WhatsApp, por exemplo, têm se transformado em uma ferramenta de exclusão, perseguição, de fomento à “caça às bruxas”, objetificando crenças e as transformando em verdades absolutas. É como acreditar na descrição do exemplo da mulher com cabelos naturalmente ruivos (e raro por não ser frequênte em algumas regiões), chegar aos 30 anos solteira, em uma época que o normal (mais frequente) era casar a partir de sua primeira menstruação (símbolo de maturidade/maioridade da mulher), sair nas noites de lua cheia (quando a luz intensa da lua iluminava abundantemente a floresta), chegar com cestas cheias (de plantas e ervas, por ser curandeira), ter gatos por companhia (escolha), e beber manga misturada com leite e não morrer (por ter conhecimento das ervas), e a definir como bruxa e ser associada ao demônio…

É o mesmo que acreditar que todo muçulmano é um terrorista, que todos os imigrantes são uma ameaça à segurança e à soberania nacional, que todo pobre e morador de comunidade é bandido, que os tiroteios nas faculdades, escolas, boates, sinagogas, parques, favelas, comunidades, etc., não são um problema da falta de vontade política para confrontar suas crenças e ressignificá-las. Nos E.U.A., por exemplo, sobre a questão dos tiroteios, o governo tem a crença que o problema, é exclusivo de saúde mental, e não por falta de controle da venda de armas, ou critérios rígidos para a obtenção de porte de armas de fogo. Veja como o conflito de opiniões e crenças rígidas, ainda hoje, não se tornaram oportunidades de aprendizado para o estabelecimento do diálogo. Crenças rígidas como essas, que reduzem o ser humano a um conjunto de sintomas no caso da doença mental, ou objeto a ser descartável, ou excluído no caso de pessoas com práticas diferentes do grupo social dominante, foram o pano de fundo para as atrocidades perpetradas pela Igreja Romana na idade média, e atualizadas por governos, autoridades e grupos armados nos dias de hoje.

Para a doença mental, temos tratamentos medicamentosos associados a terapias. Para crenças e preconceitos, que estão na dimensão da psique e que se constróem através do aprendizado em seu núcleo familiar, escolar, religioso, social e profissional, não. Só podemos combatê-los com a educação e a tolerância ao diferente. E sim, o pensamento mágico pode ser produzido pelo sujeito, bem como induzido por doenças e por influências religiosas. E você acredita em bruxas?

By |2018-11-21T16:54:29+00:00novembro 22nd, 2018|Categories: Psicologia|Tags: |0 Comments

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Cristina Lima
Psicóloga e Pós-graduada em Avaliação Psicológica. Psicoterapeuta com atuação em Avaliação Psicológica e Orientação profissional, incluindo aposentados com uma proposta de construção de um novo projeto de vida sustentado pela promoção do autoconhecimento, ressignificação e descobertas de novas competências, diante da nova fase da vida e a partir dela.