Ganhos secundários são as consequências que acompanham situações nas quais indivíduos por ocasião de uma doença ou simulação de uma, recebem um tipo de atenção que até aquele momento não tinham. É um movimento tão sutil a priori que na maioria dos casos não é percebido pelo indivíduo que está doente ou passando por uma situação negativa; o que torna mais provável a repetição desse comportamento.

Um comportamento que é aprendido ainda na infância. Um exemplo clássico: uma criança acorda com febre e tosse num dia frio de inverno, está chovendo e ventando lá fora; a mamãe cuidadosa e diligente, mede a temperatura e constata que seu pequeno está realmente com febre; sua primeira decisão, é que ele não irá para a escola, ficará de cama sendo medicado e recebendo atenção redobrada. A criança além dos cuidados para a recuperação de sua saúde, também receberá os benefícios implícitos e explícitos dessa relação, transformando uma situação negativa (a doença), em algo positivo (amor, carinho e atenção redobrada); e isso, é um estimulante para reforçar e incentivar esse tipo de comportamento. Por isso, é inconsciente, isto é, a princípio o indivíduo não tem consciência que está recebendo algo em troca, por estar doente.

É errado? Não, nem pecado. Diferentemente de várias denominações religiosas, a Psicologia não quer punir e muito menos julgar o ser humano; a Psicologia como ciência e profissão, estuda profundamente os fenômenos que envolvem os comportamentos e seus “gatilhos” ativadores, para a partir desse entendimento usar a Psicoeducação, para informar e esclarecer as pessoas como se desenvolve por exemplo o ganho secundário na doença. O exemplo acima, nos mostra como é possível uma criança fazer uma associação simples desse fenômeno –, “se fico doente, mamãe me dá carinho e me deixa ficar em casa, logo, não vou à escola”. Entretanto, quando essa criança se torna um adolescente e usa desse expediente para fugir da prova da qual ele não estudou, além de já ter internalizado e estabelecido os ganhos secundários desse comportamento, é possível inferir também, que esse malandrinho já faz conscientemente essa escolha de vida.

Assim como o ser humano é complexo e plural, também são suas motivações para se beneficiar dos cuidados e atenção dispensadas para si, muitas vezes, criando uma necessidade constante de demanda para sua família e cuidadores. Transformando algo que deveria ser uma exceção (a doença) em regra, desenvolvendo uma crença que na Psicologia, chamamos de autossabotagem; pois são intencionais, mesmo que os indivíduos implicados na ação digam – “que não tiveram a intenção”. Segundo o filósofo prussiano Immanuel Kant (1724-1804), “Toda ação tem uma intenção”, isto é, há um motivo para agir, pois o sujeito tem em mente um fim e busca meios para atingi-lo.

Esse é um tema muito estudado por Psiquiatras e Psicólogos desde Sigmund Freud (1856-1939), que introduziu o estudo da psicossomática, como sendo um conceito de pulsão no limite entre o somático e o psíquico; a pulsão como gerenciadora dessas duas dimensões: corpo e mente. Psique, do grego clássico significa: mente e Soma: corpo. Com esse entendimento Freud (sempre ele), estabelece uma associação entre Psique e Soma, onde conclui que todas as enfermidades no corpo (Soma), originam-se na mente (Psique), por meio de pensamentos e emoções (não elaboradas psiquicamente), como forma de satisfação substituta da tensão sexual somática reprimida. Freud denominava tensão sexual, uma forma de energia libidinal de vida e não necessariamente no contexto sexual. Ainda segundo seus apontamentos, toda frustração reprimida seja na ordem sexual (em princípio), profissional ou social, tendia a ser convertida em males no corpo.

Pessoas emocionalmente dependentes, frustradas e decepcionadas com as escolhas que fizeram, são mais propensas a desenvolverem um padrão de comportamento e pensamento negativos; essas pessoas geralmente são oriundas de lares disfuncionais e não obtiveram, ou assim foi percebido por elas, que suas necessidades básicas de afeto, atenção e proteção não foram supridas de maneira satisfatória. Na tentativa de conseguir o que almejam, os “doentes” sobrecarregam seus cuidadores que podem ser filhos, cônjuges, a família, amigos ou mesmo as pessoas que são pagas para essa função. Pessoas que ainda não aprenderam a exercitar a sutil arte de dizer não para esses indivíduos, estão mais predispostas a se tornarem reféns dessa relação tóxica, que é alimentada pelo desejo recalcado de sofrer e punir-se do sujeito que preenche o vazio de sua vida com a doença.

Quem se beneficia com ganhos secundários simulando uma doença ou uma situação negativa, geralmente, são indivíduos resistentes à mudança ou a qualquer tentativa de esclarecimento de que seu estado de saúde não é grave, ou mesmo inexistente. Há exemplos na literatura científica, onde pessoas com obesidade mórbida, depressão, ansiedade generalizada, diabetes, alergias, enxaquecas, bronquite, asma e etc., curam-se da doença; mas, se tornam pessoas confusas e tristes, pois não sabem como viver sem os cuidados que outrora recebiam por conta de sua enfermidade. Em alguns casos, o ciclo de “doenças” recomeça.

O que leva as pessoas a procederem dessa maneira? Segundo Kant, uma inclinação egoísta e interesse próprio. Para esse filósofo, é a intenção que conta, é ela que marca a moralidade da ação e, vai além quando afirma: “É teu dever fazer a coisa certa. O importante é a qualidade da intenção presente nas ações, o caráter do motivo” […] cada um de nós tem o dever de preservar a sua própria existência. Kant, em sua ética deontológica avalia a moral das ações; ele fazia o seguinte questionamento –, “Fazemos o que está certo, mas, muitas vezes pelos motivos errados, o que faz da ação não ter qualquer valor moral”, citações do livro “Fundamentação da Metafísica dos Costumes” (1785) em sua primeira edição.

Introduzindo o pensamento de Kant, para o tema desse artigo, os ganhos secundários seriam em muitos casos o principal reforçador (o motivo), para o comportamento da hipocondria [crença infundada de que o sujeito padece de uma ou várias doença(as) grave(s)], a intenção por trás da ação de adoecer. Essas pessoas que usam a doença ou simulam uma com o objetivo fim de obter atenção do outro, necessidade de aprovação de ser amado, ou ser o centro das atenções, geralmente usam a chantagem emocional, doenças e simulações de situações negativas como meios para atingir seus planos de não serem ignorados. Fica claro que Kant diverge do pensamento de Freud, quando aduz que “Toda ação tem uma intenção” e o Pai da Psicanálise por sua vez, afirma que o sujeito seria impulsionado pela tensão libidinal que a princípio seria inconsciente para fazer o que faz. Para Kant, apenas por vezes é verdadeiro que ações são produzidas pelas crenças e desejos não racionais do sujeito.

Usando a ética pura, a análise e a ciência da Psicologia para investigar e tentar compreender essa relação sujeito-doença, ganhos-perdas, relações tóxicas, interpessoal e intrapessoal e todo universo que compõe o ser humano, chego à conclusão da diversidade e das dificuldades em compreendê-lo e trata-lo sem uma articulação de vários saberes e da associação de diferentes disciplinas dedicadas à saúde. Há muito o que investigar sobre a Psicossomática, mas, existe um ponto central convergente, entre os estudiosos da área no que tange à compreensão emocional dos indivíduos com uma obsessão com sintomas, defeitos físicos irrelevantes, preocupação exagerada e auto-observação constante com o corpo e até a descrença nos diagnósticos médicos; a doença mental com sintomas físicos. Para a Psicologia, antes de tratar o corpo há que se levar em consideração a subjetividade do desejo do sujeito. – Ele quer ser curado ou prefere manter-se nesse movimento de auto-piedade? Qual o ganho que ele tem com esse comportamento?

A baixa autoestima e a negação da realidade associadas à frustração de uma vida sem conquistas próprias, permite que muitos indivíduos interpretem suas angústias e vazio existencial como sintomas de doenças; essas pessoas comumente criam ambientes opressores e de subserviência em torno de si, se tornam egoístas e são narcisistas a ponto de direcionar sua irritação e desaprovação para o sujeito que rompe com esse ciclo vicioso e se nega a cair na chantagem.

Vejamos alguns exemplos de ganhos concretos com a doença ou simulação de uma: pessoas que saem de licença médica por um tempo e postergam sua volta criando mais doenças, podem ter como motivo a frustração com o tipo de trabalho que desempenham; porém, com a negação dessa realidade usam como meio a doença para se afastar da situação negativa (o trabalho) e ter seu objetivo fim a licença ou mesmo a aposentadoria por questões médicas.

Relacionamentos violentos – O Mártir, uma pessoa que ganha reconhecimento público por sua vida de “sacrifícios” culpando o outro por sua infelicidade e sofrimento, pois diz acreditar na mudança do outro em detrimento de sua própria; e assim não assume a responsabilidade das consequências de suas ações e muito menos das escolhas que fez. Isso é o que Sartre (1905-1980), concebeu como má-fé. Aqui o sujeito vive em uma relação sem amor, sem respeito e violenta (algo negativo), mas ser publicamente reconhecido (algo positivo) e receber atenção redobrada, elogios e ajuda como retribuição de sua vida de “sacrifícios”, tem para esse sujeito um ganho secundário, pois preenche o vazio existencial de uma vida improdutiva, infeliz e sem aspirações profissionais ou sociais. Parece loucura? Para muitas pessoas psicologicamente saudáveis sim; mas, para esses indivíduos especificamente, não. Isso é apenas o modo de vida que escolheram intencionalmente de viver seus relacionamentos de maneira disfuncional.

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais em sua 5ª edição, uma série de fatores pode contribuir para o transtorno de sintomas somáticos e transtornos relacionados: vulnerabilidade genética e biológica, experiências traumáticas precoces e aprendizagem (lembram da criança que usei como exemplo no início do artigo?), bem como normas culturais/sociais que desvalorizam e estigmatizam o sofrimento psicológico em comparação com o sofrimento físico. Em outras palavras, é mais aceito pela sociedade que uma pessoa tenha uma doença física do que padeça de uma doença mental. É o que aponta o DSM-5, em uma pesquisa para a conclusão de seu estudo em 2013, onde aproximadamente 75% das pessoas previamente diagnosticadas com hipocondria foram inclusas no diagnóstico de transtorno de sintomas somáticos. Isto é, de 100 pessoas que chegaram com queixas de doenças físicas, 75 delas estavam somatizando causas emocionais e produzindo sintomas físicos. Esse número é alarmante, quando se observa o impacto que essas pessoas causam sobrecarregando o sistema de saúde de atenção primária e secundária.

Pensamentos negativos produzem químicas que são prejudiciais para o organismo, como as doenças relacionadas com o estresse crônico, hormônios como cortisol, adrenalina e noradrenalina. Mas o contrário também é verdadeiro; pensamentos positivos como a gratidão, o perdão, o amor, produzem os hormônios relacionados à sensação de felicidade e ao bem estar, endorfina, ocitocina, dopamina e serotonina. Pensamentos negativos e crenças limitantes causam bloqueios emocionais que podem levar à bloqueios físicos. Informações químicas são convertidas em informações elétricas no neurônio –, o cérebro é uma rede eletroquímica.

O confronto das teorias da Ética Pura de Kant e da Pulsão libidinal inconsciente de Freud, foi necessário para observar a vastidão de conhecimentos distintos que foram produzidos para a investigação dos comportamentos humanos e o que os ativa; com o advento das neurociências, avançamos muito em várias áreas, porém, o ser humano ainda hoje, é um mistério e continua a estimular estudos e pesquisas sobre – o “Por que fazemos o que fazemos?”, “Qual o sentido para as nossas ações?”, são as perguntas que nos fazem sair do lugar comum e não as respostas. E por fim, deixo uma lição milenar de como podemos nos conectar com a nossa essência e aprender como evoluir. Buda disse – “Cada homem e cada mulher são arquitetos de sua própria cura e de seu destino”.

Procure um Psicólogo certificado de sua cidade, esse é o profissional qualificado para ajuda-lo a criar estratégias de aceitação e identificação de alterações ou mudanças nos padrões comportamentais comuns para os disfuncionais.