Feminicídio e Anomia Social

“Um País se faz com homens e livros” Monteiro Lobato (1882-1948); eu acrescentaria a essa frase do escritor brasileiro a palavra mulheres, para uma atualização do pensamento do século passado para o atual e a comporia assim, “Um País se constrói com homens, mulheres e livros”. Resumindo essa frase em uma palavra, seria: Educação. Para todos os membros da sociedade com as mesmas oportunidades e direitos. Isto é, equidade. Entende-se equidade social, como um conjunto de práticas que tem como objetivo derrubar todas as barreiras sociais, culturais, econômicas e políticas que impliquem em exclusão ou desigualdade. Também acrescentei a palavra construção, pois me remete à um processo que é gradual no tempo e espaço, e que toma para si, homens e mulheres, a responsabilidade do fazer, e não do “País” que se faz.

Uma nação que pretende ser “Grande”, competitiva no mercado exterior, desburocratizar o sistema, tirar o país da idade média e crescer, precisa primeiro, pensar seriamente em Educação; não há na história conhecida da humanidade, desenvolvimento sem educação de seu povo, revolução industrial sem o aprimoramento de sua mão de obra, descobertas científicas em todos os campos, sem o investimento sério e pesado na capacitação dos envolvidos no processo. Uma nação para ser grande, precisa pensar grande, precisa construir seu futuro com as bases sólidas no conhecimento, na educação formal, no incentivo à pesquisa, ao desenvolvimento intelectual e moral de nossas crianças. Na construção civil nada é mais emblemático do que a máxima: conhecemos um prédio sólido por seus pilares, sua fundação, o primeiro passo no processo da construção – sua origem. Nesse jogo de palavras, nossas crianças, são (ou deveriam ser) nosso projeto de construção com pilares sólidos (educação), para a edificação de uma Grande Nação.

O que isso tudo tem a ver com o feminicídio? Tudo! A começar com o debate público em todos os meios de mídia, que se tornou o decreto presidencial sobre o direito à posse de armas de fogo; as discussões e dúvidas vão desde a guarda da arma em seu local de trabalho, em casa, ter um cofre para a guarda responsável, em caso de famílias com crianças pequenas, com pessoas com necessidades especiais, como fazer para transitar com a arma para o estande de tiro, poder comprar 4 ou mais, etc.; vejam quantas questões levantadas sobre um assunto que deveria estar em segundo plano, não fossem também as taxas de homicídios e feminicídios diários associados à armas de fogo que estampam as capas de jornais e revistas, além dos noticiários em rádio e tv. Quando deveríamos estar discutindo vários planos educacionais, criando projetos de médio e longo prazo para uma educação continuada e integral da creche à faculdade. E mais uma vez, a educação é negligenciada e reduzida à uma discussão ideológica, ora partidária, ora sem partido.

Na busca para estabelecer um paralelo entre mitos antigos e o que está acontecendo com a psique e a sociedade, e em especial com o comportamento violento do homem que mata a mulher, trago o mito grego sobre a criação do mundo e da mulher, Pandora. Hesíodo (VIII a. C.), poeta grego arcaico, relata a criação da primeira mulher em dois poemas, “Teogonia” e “Os trabalhos e os dias”; em síntese, o titã Prometeu rouba o fogo divino para entregá-lo aos homens. Zeus, o rei dos deuses em sua fúria diante de tamanha ousadia, decide se vingar e ordena que o ferreiro Hefesto prenda e castigue Prometeu, acorrentando-o à um rochedo no alto do monte Cáucaso, onde uma águia comeria seu fígado, (como castigo pouco é bobagem) sendo imortal, seu órgão durante a noite se regenerava, para ser comido novamente no dia seguinte pela eternidade. Hefesto, também artesão, é obrigado por Zeus, a criar a primeira mulher como presente e perdição dos homens: Pandora – notem, ela é criada com um propósito, o de vingança contra os homens; ela é feita de barro e esculpida artesanalmente; ela é um produto, um artifício, um engodo… Não há menção de virtudes humanas em Pandora, apenas a beleza efêmera e superficial.

Zeus escolhe Epimeteu, irmão de Prometeu como o alvo de sua ira contra os homens, e o presenteia com a bela e sedutora Pandora (feita sob medida!?). Aqui, as traduções, interpretações e inferências de vários historiadores sobre os fragmentos dos textos originais, fazem menção a um erro de análise sobre a “Caixa de Pandora”, que seria na verdade um jarro (utensilio doméstico) comum nas casas gregas e não uma caixa, que estaria mais associada a uma leitura moderna do mito. Esclarecida essa confusão, voltemos ao mito de Pandora e sua vida de casada tediosa, sim, a mulher casada na mitologia grega não escapou do tédio e da rotina do matrimônio; segundo os textos, Pandora, havia sido advertida a não abrir o jarro, em hipótese nenhuma, mas, sua curiosidade, foi maior que a advertência, e ela o abriu. Nesse momento, todas as coisas mais horríveis saíram do jarro, incluindo fome, morte, doença, pobreza, dor, ódio, ganância, inveja e a guerra; deste momento em diante fica associado à mulher a responsabilidade de ter liberado todos os males no mundo. Ainda segundo o mito grego, apenas a esperança permaneceu dentro do jarro. Explicando talvez a origem do dito popular – “A Esperança é a última que morre”.

Outra variante desse mito, é o da tradição judaico-cristã – Eva. “Entregue a Adão para ser a sua companheira, Eva é a perdição do gênero humano” (BEAUVOIR, 1949). Beauvoir, discorre em seu livro “O Segundo Sexo” (1949), sobre o papel da mulher, sua imagem e suas representações na arte, literatura, escultura, pintura, nos discursos médicos, jurídico, político, filosófico, religioso e jornalístico. Refletindo sobre a obra de Simone de Beauvoir, a Professora da Universidade de Paris I Pantheon-Sorbonne, Pauline Schmitt-Pantel, levanta a questão sobre os relatos da criação da mulher ser um ardil para a história das mulheres. Schmitt-Pantel, em um capítulo do livro “O Corpo Feminino em debate” (2003), analisa a criação do mundo e da mulher Pandora, na tradição grega, e Eva, na judaico-cristã, variantes de um mito muito disseminado, que cria a mulher como uma categoria secundária, associando sua criação à introdução da morte e do mal no mundo; ela está associada ao pecado, à tentação. E conclui entre outras coisas, que a mulher continuou a ser representada como a degradação moral e do pecado. Leitura indispensável para aqueles que como eu, tem sede de conhecimento.

Conhecimento é poder! poder de não ser trapaceado, poder de conhecer seus direitos e deveres, poder de escolha, poder de dizer não! Conhecimento esse, que foi negado às mulheres por milhares de anos, salvo algumas exceções na história. À mulher, foi lhe imposto o papel e a obrigação de submissão ao homem, aos cuidados da casa e dos filhos, ao silêncio; a coerção social exerceu sua força sobre os hábitos e costumes da sociedade direcionando seus pensamentos e estimulando comportamentos violentos contra a mulher em episódios que ela, revestida de coragem e em uma tentativa desesperada, tenta escapar de seu destino determinado por seu marido, que muitas vezes, se torna seu algoz; e sob a cumplicidade de uma sociedade omissa, que a exemplo da representação dos três macacos que fecha os olhos para a violência doméstica que está ao lado, tapa os ouvidos para os gritos de socorro, fecha a boca para não denunciar e compactua para a perpetuação dos atos de violência contra as mulheres. Reforçando a crença de que em “briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”, ou que “ela procurou por isso”, ou pior, “ela já sabia do temperamento dele, agora que aguente”….

A mulher do século 21, já empoderada e sabedora de seus direitos e deveres, não está livre dos estereótipos criados para reprimir seus avanços no mercado de trabalho, e cercear sua liberdade em busca de direitos civis igualitários, com discursos do tipo: a mulher deve ser o alicerce da casa, a ela é dada a responsabilidade de criar, educar, arrumar, cozinhar, lavar, passar, enfim, todos os afazeres que giram em torno do universo que compõe um lar e seus habitantes. Um discurso sexista benevolente, que aparenta positividade, mas, ele é persuasivo e utiliza o reforço psicológico com elogios direcionados ao comportamento desejável pelo homem, para que ao fazê-lo, a mulher internalize e os incorpore em seus hábitos diários, e passe a agir desta maneira de acordo com o que pensa o coletivo; suas ações mais íntimas estariam conectadas ao pensamento coletivo e devidamente integradas nesta ordem social, a patriarcal!

O precursor deste pensamento foi o sociólogo Émile Durkheim (1858-1917), “Coerção social é a força que os fatos exercem sobre os indivíduos, levando-os a conformarem-se às regras da sociedade em que vivem”. Conformismo com as leis e normas sociais criadas por homens para o controle e dominação de um grupo, aqui em específico o de mulheres. As mulheres que agiram e agem fora desse padrão submisso, do lar, etc., são alvo da exclusão, da difamação, da humilhação, empurradas para as margens dessa sociedade, inclusive por mulheres; ser sexista e machista independe de gênero, são as mães sexistas que criam e educam filhos machistas e misóginos.

Durante séculos foi assim, mas hoje, não. A mulher atual quer ser independente, quer se casar por afinidade, por amor, quer estudar, ser Presidente de seu País, ser astronauta, juíza, ministra, profissões e cargos que eram exclusivamente até pouco tempo atrás, de homens, e, ainda assim, ser feminina, ser mãe, ser amada, cuidada e sobretudo, ser respeitada. E a sociedade entendeu que estamos em outros tempos, construindo um “mundo novo”, novas representações do corpo feminino, novos saberes sobre a psique e o comportamento humano; uma reconfiguração da estrutura social, onde a mulher foi reconduzida à dimensão das virtudes humanas, qualidades negadas a Pandora, por seu criador o poeta Hesíodo; e da dignidade e direitos iguais negados à Eva, pelos escribas da história da tradição judaico-cristã.

A anomia surge quando as normas de conduta estabelecidas como regras pela sociedade vigente para se alcançar metas sociais, não estão devidamente incorporadas nessa nova ordem. A anomia social é entendida como a falta de consciência coletiva, ela é uma quebra de paradigmas negativa, ela é uma patologia! Um exemplo disso é uma sociedade doente e apática que permite a violação do direito mais fundamental previsto na Constituição Federal Brasileira, em seu artigo 5º, o direito à vida. O feminicídio se tornou uma anomalia, uma desvirtuação das conquistas femininas, do espaço simbólico que a mulher vem ocupando na organização e estrutura política e social em todo o mundo. A garantia do voto, das liberdades sexuais, parece aflorar um pensamento coletivo arcaico em alguns homens inseguros e frustrados no que pensam e acreditam ser seu direito, à posse da mulher. Pensamento sexista arcaico e insidioso que vem tomando o consciente coletivo, produzindo um drama atrás do outro; mulheres são mortas e descartadas como um produto, uma coisa, uma propriedade exclusiva e sem direitos. Uma sociedade educada e esclarecida tem menos chances de pegar em armas para resolver suas pendências. Investir em educação de qualidade é criar ferramentas e instrumentos intelectuais para auxiliar a resolução de problemas interpessoais, é promover a mudança do paradigma da justiça “com as próprias mãos”.

A educação estimula o pensamento livre e crítico e ajuda a quebrar as correntes simbólicas da representação feminina como produto feito para o prazer e satisfação do homem. Se o homem é um produto do meio, como afirmava Karl Marx (1818-1883), então, penso que uma das soluções para essa transformação (do meio) gradual e contínua é através da educação de qualidade de seu povo. Não tenho ilusões de que a violência irá desaparecer por completo, ela faz parte da história e da natureza do ser humano; todavia, um povo intelectualmente superior, tem sucesso e vantagens sobre os demais quando o assunto é resolução de problemas, sejam eles de que natureza forem.

Eu sou a favor do porte e posse de livros por toda a sociedade sem distinção, pois a melhor arma para salvar o cidadão é a educação. Uma nação com pretensões de grandeza deveria começar pelo básico. Em minha caixa/jarro, a Esperança ainda vive.

By |2019-01-30T11:02:36+00:00janeiro 30th, 2019|Categories: Psicologia|Tags: , , , |0 Comments

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Cristina Lima
Psicóloga e Pós-graduada em Avaliação Psicológica. Psicoterapeuta com atuação em Avaliação Psicológica e Orientação profissional, incluindo aposentados com uma proposta de construção de um novo projeto de vida sustentado pela promoção do autoconhecimento, ressignificação e descobertas de novas competências, diante da nova fase da vida e a partir dela.