Misoginia e Sexismo com pitadas de psicopatia

Há tantos misóginos, sexistas e machistas no mundo quanto grãos de areia na praia. Há misóginos orgulhosos que estufam o peito, como por exemplo, o policial militar paulista, que durante o Carnaval e dentro da Delegacia de Polícia, diante das reclamações de foliões sobre as agressões sofridas gratuitamente, com bombas de efeito moral, jatos de gás lacrimogêneo e balas de borracha, gritou para uma reclamante –, “abaixa o dedo mulher, não aponta o dedo aqui não, eu não tenho cerimônia de quebrar a cara de mulher não”. Um policial militar, que é um servidor público e sua principal função seria à de proteger as pessoas. Nesse infeliz exemplo, temos um misógino com muito orgulho e com pitadas de psicopatia.

Também há misóginos, sexistas e machistas enrustidos, que vivem “dentro do armário”; são homens que assistem agressões como essas e não fazem nada para evitar as vias de fato. Homens que dizem: “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”, “a mulher é dele, eles que se entendam”, “ele, pode não saber porque está batendo, mas ela sabe, porquê está apanhando”.

“O psicopata pode, por exemplo, achar que não há nada de errado em dizer a uma mulher ‘Eu te amo’ logo depois de bater nela. Ou dizer a alguém ‘Eu precisei dar uma surra nela para ela não sair da linha, mas ela sabe que eu a amo”, trechos do livro “Sem consciência” (2013), de Robert D. Hare, Psicólogo canadense e criador da Psychopath Checklist, Revised, PCL-R (Avaliação de Psicopatia), instrumento, padrão ouro, por meio do qual o autor operacionalizou o conceito de psicopatia. Ela fornece um quadro detalhado das personalidades perturbadas dos psicopatas que se encontram entre nós; de uso restrito para Psicólogos.

Lembrem-se os psicopatas não são os monstros assassinos seriais que Hollywood, criou e normatizou no consciente coletivo; eles estão à nossa volta, dentro de casa, no local de trabalho, na escola, na faculdade, nos grupos religiosos, estabelecimentos públicos, “prestando serviços” à sociedade. Como os motoristas de táxis e de aplicativos, que estupram e matam suas passageiras. Médicos que se aproveitam de um suposto poder que lhes é conferido pelo diploma de medicina, que estupram, matam e mutilam suas pacientes. Apresentadores e jornalistas que humilham em público mulheres bem sucedidas em suas carreiras, com comentários escatológicos, de baixo nível e quase sempre com cunho sexual. Quantos diretores, produtores e atores denunciados por assédio sexual e moral, foram desmascarados nos últimos anos e em suas defesas alegaram que foram vítimas de tentativas de extorsão por parte das mulheres? Presidentes, Chefes de Estado e CEOs que usam o poder de seus cargos para infringir todas as leis civis, criminais e morais, já pensadas e criadas pelo homem para a tentativa do convívio pacífico entre os povos, e sem as quais, estaríamos reduzidos a selvagens primitivos, vivendo um relativismo moral, isto é, cada um vivendo à sua maneira de acordo com as suas próprias regras.

Estamos testemunhando nos dias atuais, um relativismo moral em relação aos direitos e à violência contra as mulheres. Educadores do Portal da Educação, conceituam o relativismo moral como uma expressão de diferentes pontos de vista acerca de um determinado fato, que parte do pressuposto de que cada pessoa ou grupo social se expressa de maneiras diferentes diante de determinada situação. Portanto, a interpretação desses atos deverá levar em consideração as características morais e culturais presentes em determinado indivíduo ou grupo social. Logo, é um conceito dual, e em linhas gerais podemos inferir que, parte da sociedade é a favor dos direitos civis, políticos e econômicos que nós mulheres, clamamos por tantos séculos, enquanto a outra metade se opõem. A famosa polarização.

A misoginia, assim como o sexismo, não é percebida pelos homens como preconceito, mas como um comportamento coletivo inevitável para muitos e necessário para seu ritual de transição para a puberdade, o rito de passagem para ser aceito por seu grupo social. “O clube do Bolinha”, onde só meninos são permitidos, prática comum e aceita e, em algumas regiões e em determinados setores da sociedade até fomentada; em síntese – é a prática mais comum da introdução no consciente coletivo masculino, de separação entre meninos e meninas. Exemplos de organizações pensadas e criadas para esse fim, foram as Forças Armadas, Colégios Militares, Colégios Católicos e o próprio clero, apenas para citar alguns.

A misoginia é o nome dado para a antipatia, o desprezo e/ou aversão às mulheres. Em julho de 2018, escrevi um artigo sobre o assunto com o título “Misoginia, sexismo e futebol”, e classifico esse comportamento machista em relação à mulher, como um fato social, que é um fenômeno histórico e cultural. Fenômeno, esse, cantado em verso e prosa pelos Rappers e Funkeiros, que em suas letras de cunho extremamente sexual e pejorativo, violam a dignidade e humanidade da mulher. Assim como, programas ditos de comédias, que em sua totalidade fazem apenas piadas que ridicularizam e denigrem a imagem da mulher.

Também há os misóginos enrustidos, que nutrem uma aversão pelas mulheres que têm opiniões próprias, quando estas expressam seus pontos de vista sobre um determinado assunto; os misóginos enrustidos, sempre discordam absolutamente de tudo, com críticas ácidas, alimentando seu ódio e desprezo com julgamentos de valores que seguem apenas o seu sistema de crenças. Homens que agem como se o certo e o errado fossem uma questão de opinião própria (a sua). Vivendo dentro “do armário”, esses sexistas discriminam as mulheres pelo modo como se vestem, pela cor do esmalte que usam, pela cor do batom, pelo estilo de cabelo, como falam; acreditam piamente que são melhores e mais competentes que elas. Ser misógino, sexista e machista não é apenas um comportamento exclusivo do universo masculino, existem mulheres e gays que adotam esse discurso ambíguo de amor e ódio, inferior e superior. Alimentando a intolerância, a rivalidade entre gêneros e construindo muros e barreiras, quando o que mais precisamos são pontes para o diálogo.

Mulheres que validam esses comportamentos geralmente são aquelas que cresceram ouvindo que eram inferiores e menos competentes que seus irmãos, primos e colegas masculinos. Elas internalizaram essas crenças como verdadeiras e não só acreditam, como reproduzem esse discurso e comportamentos para suas filhas e netas. E fazem isso, sem se dar conta do sentimento de menos-valia que nutrem em relação aos homens, quando só procuram, acreditam e concordam com profissionais do sexo masculino. Validando e normatizando a assimetria entre os gêneros feminino e masculino no mercado de trabalho. Um exemplo claro é a discrepância em números absolutos na última eleição no Brasil, 11,2% é o número da representatividade de mulheres na política. Com o título “Brasil tem menos mulheres na política que o Afeganistão”, a Revista eletrônica Superinteressante de outubro de 2018, reportagem de Pâmela Carbonari, traz em seu artigo que quando o assunto é a proporção de mulheres na Câmara e no Senado perdemos feio para países como Afeganistão com 27,4% e Ruanda, que passou por um genocídio em 1994, em apenas 100 dias cerca de 800 mil pessoas foram massacradas, hoje tem 63,8% dos lugares da Câmara ocupados por mulheres e, se tornou a primeira nação a eleger um Parlamento de maioria feminina. Com um cenário semelhante o Afeganistão é um país extremamente militarizado e vive em guerra. Então, por quê existem mais mulheres ocupando o espaço político desses países? A resposta é simples – porque as mulheres desses países são unidas, acreditam em si e em seu poder de diálogo, estimulando e fortalecendo seu grupo social, validando suas lutas e votando maciçamente em mulheres. Elas estão construindo pontes para um futuro, onde suas filhas e netas não dependam de um casamento contratado para seu sustento; um futuro de mulheres fortes, livres, assertivas em suas escolhas, conquistando direitos civis igualitários e tomando decisões para seu país em pé de igualdade com os homens.

Como muito bem analisado e estudado pelo Professor e Antropólogo Kabengele Munanga, quando perguntado sobre a dicotomia “racistas” e “antirracistas”, sua resposta foi de preocupação, que esses dois grupos distintos estivessem carregando a mesma bandeira; com os marcadores identitários servindo mais para promover uma divisão do que de fato a diversidade. E afirma que essa dicotomia (podemos ampliar esse debate para o preconceito, misoginia, sexismo, machismo e feminismo radical) não se combate eficazmente com leis e/ou punições. Mas pela educação, que começa no lar e depois vai se expandindo para as ruas, escolas, etc… O professor Munanga, observa que para uma educação plena, é preciso conscientizar as pessoas e mostrar que a diversidade é uma riqueza da humanidade e diz: “É preciso unir as lutas, sem abrir mão das especificidades”.

Sem a adesão dos pais e da família, que são o núcleo primário das lições aprendidas como verdades a priori, não mudaremos o status quo da sociedade atual. A família é a base que constrói e educa membros que comporão grupos distintos em interesses, saberes, habilidades, talentos e competências, formando moral e eticamente segundo seus valores e crenças, nossos futuros amigos, colegas de trabalho, namorados, chefes, patrões, políticos, pais. E como a sociedade gostaria que esses homens fossem? Cruéis, assassinos frios, espancadores sádicos, estupradores seriais? É claro, que há o componente biológico/genético além do ambiente que influencia esses comportamentos característicos da psicopatia, mas, não fazer nada, não é uma opção.

Reforçando o que o professor Munanga, disse sobre como combater esses comportamentos desviantes do preconceito em sua origem, é importante ressaltar que o preconceito é um sentimento hostil de intolerância, ele é pré concebido sem uma reflexão ou análise apurada do fenômeno. Ele é da dimensão da psique, construído e aprendido em seu núcleo familiar, escolar, religioso, social e profissional. O preconceito é de constituição subjetiva do sujeito, isto é, não podemos ver, apenas quando se materializa em palavras, músicas, por escrito ou comportamentos aqui já descritos. A mudança começa com você, comigo, com todos nós sob uma única bandeira, a do respeito ao próximo, tolerância às diferenças, promoção ao diálogo e às ideias diversas, aceitação do contraditório. E por fim, mas não menos importante, deixo uma frase de uma grande escritora brasileira que condensa os desejos de todos que anseiam ser livres. Por um mundo com mais poesia!

Cecília Meireles – “Liberdade de voar num horizonte qualquer, liberdade de posar onde o coração quiser”.

By |2019-04-04T18:05:45-03:00abril 10th, 2019|Categories: Psicologia|Tags: , , , |0 Comments

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Cristina Lima
Psicóloga e Pós-graduada em Avaliação Psicológica. Psicoterapeuta com atuação em Avaliação Psicológica e Orientação profissional, incluindo aposentados com uma proposta de construção de um novo projeto de vida sustentado pela promoção do autoconhecimento, ressignificação e descobertas de novas competências, diante da nova fase da vida e a partir dela.