Arthur Schopenhauer (1788-1860), escreveu certa vez: “Da árvore do silêncio pende seu fruto, a paz.” Refletindo profundamente sobre o vazio existencial e analisando o barulho produzido por pessoas que falam sem ter nada a dizer, e numa tentativa de desenredar esse paradoxo do vazio que produz barulho, trouxe uma fábula atribuída a Esopo, nascido supostamente no século VI ou VII a.C., na Ásia Menor; pouco se sabe sobre Esopo, há até quem duvide da sua existência. Talvez, sua história seja uma fábula também. De todo modo, pensar em como se deu a produção de ideias nas quais as fábulas estão fundamentadas, como na dimensão crítica dos fenômenos sociais e suas representações, é de fato, ilustrar o homem como produto e produtor ativo que reflete a condição cultural, histórica e social em que vive.

Pensar na subjetividade humana inserida na objetividade manifesta dos comportamentos produzidos em sociedade, é um escopo (atribuição) da Psicologia Social, que tem foco nos aspectos relacionais entre os membros de um grupo social e de como se dá a transmissão de valores dentro desse grupo. Kurt Lewin (1890-1947), psicólogo alemão e pioneiro no estudo das organizações, aduziu que os padrões de comportamento são decorrentes das interações e das influências que o indivíduo estabelece com o meio em que vive, isto é, seus familiares, amigos, vizinhos, professores, chefes, orientadores espirituais, etc. E não por ter sido impedido de conviver com determinado grupo.

“Não irei me aventurar a fornecer normas, mas um exemplo na forma de fábula, na qual, entre alguns exemplos que se podem imitar, encontrar-se-ão talvez, também muitos que se terá razão de não seguir” (DESCARTES, 1637; 2005, p.4-5). Ainda sob o efeito de meu último artigo “Penso, logo existo. Será?”, que entre outras coisas, discorre sobre aprender a conviver com a diversidade de opiniões, de modos de ser, e que a verdade não tem dono, e sim, vários pontos de observação; e a exemplo do filósofo Descartes, trouxe uma fábula que pode ser, em certa medida, usada para descrever o barulho do vazio existencial de muitas pessoas. Vamos a ela:

Certo dia, um pai convidou o filho para irem até Atenas a pé. O filho com entusiasmo disse: que bom! querido pai, vou finalmente ver a grande cidade. E foram caminhando. Passado algum tempo, pararam para descansar debaixo de frondosas árvores à beira de um riacho. Beberam água, comeram queijo, pão, azeitonas e descansaram à sombra ouvindo as melodias dos pássaros. Entretanto, também se ouvia um barulho, primeiro longe, e cada vez, mais próximo. O menino apurou os ouvidos e disse:
– Esse barulho deve ser de uma carroça.
– É verdade filho, disse o pai. É uma carroça vazia!
– Como o senhor pode saber se a carroça está vazia se ainda não a vimos?
– Ora, é muito fácil saber se uma carroça está vazia – o barulho que ela faz é muito alto, por não ter peso em seu interior. Quanto mais vazia a carroça, maior é o barulho que ela faz.

Como podemos ver, é interessante e até pedagógico, o uso das fábulas como representações alegóricas do cotidiano e na desordem da qual muitas pessoas desenvolvem seus distúrbios mentais e por extensão comportamentais. Por exemplo: pessoas que falam demais, que são inoportunas, se intrometendo nas conversas alheias, que não deixam o outro terminar uma frase sem ser interrompido, que dão opiniões sobre todos e sobre tudo, que falam alto em lugares públicos, ou privados são um exemplo de carroça vazia. “Quanto menos os homens pensam, mais eles falam.” (MONTESQUIEU, 1689-1755). Isto é, pessoas sem conteúdo, suas palavras não têm “peso”, seus argumentos não são sólidos, suas ideias são vazias… Por isso, fazem tanto barulho; por isso gritam para serem ouvidas, ou usam de verborragia para impedir a fala do outro. Pessoas assim, demonstram um total desrespeito à opinião do outro, ao silêncio do outro, a alteridade; elas têm dificuldade para permanecerem em silêncio e filtrarem seus pensamentos.

O silêncio, por sua vez, pode assustar algumas pessoas, pois ficar só com os seus pensamentos pode trazer um desconforto com o “nada” que eles representam, porque ele é sincero demais. “As pessoas não são “pobres” pela forma como vivem; são “pobres” pela forma como pensam (Autor Desconhecido). Silenciar a voz, é uma atitude dos que buscam paz interior e capacidade mental para sentir a vida em sua plenitude.

Existe um provérbio Navajo, que diz assim: “A felicidade está onde o coração encontra repouso.” Repouso nos remete à tranquilidade, silêncio, descanso, meditação, reflexão, oração, introspecção, paz; sensações de plenitude e de felicidade, que nos faltam diante de tantas distrações tecnológicas e perniciosas à nossa saúde como um todo. Cada um reflete o que é, por mais que se deseje que o espelho “lhe diga” aquilo que convém. É interessante como podemos conhecer uma pessoa, observando como ela reage quando não consegue o que quer, ou quando exposta em eventos públicos se comporta como se estivesse circunscrita a seu universo particular, às vezes, não se importando com as normas sociais de conduta desenvolvidas para o convívio harmônico e civilizado.

Ofereça o silêncio:
• Quando não souber todos os fatos;
• Quando você não conseguir se expressar sem precisar gritar;
• Quando suas palavras forem ofender alguém;
• Quando estiver sob o impacto da emoção raiva.

Atitudes simples que podem evitar constrangimentos pessoais e até internacionais quando se trata de representantes políticos, CEO’s e Chefes de Estado. Entender que há limites diferentes para diferentes situações e espaços, é um conceito simples para uma boa convivência, seja ela em cinemas, teatros, piscinas, praias, reuniões, restaurantes, aviões, ônibus, táxi e etc. Pessoalmente gosto muito da citação de Paulo de Tarso aos Coríntios: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas me convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma.” (1Cor 6:12).

Se pensarmos metaforicamente que cada escolha nossa, fosse uma pedra lançada em um lago com águas paradas, que cria ondulações ao longo do tempo e dos relacionamentos, ricocheteando em outras escolhas, poderemos inferir que esse tecido social e emocional, ao qual todos nós estamos em menor ou maior medida costurados, concluiremos, que afetamos e somos afetados direta ou indiretamente em menor ou maior escala toda a vida na Terra. E isso, não é algo que se possa ignorar.

Falar é uma necessidade básica do ser humano, mas, silenciar e não reagir diante de uma provocação, por exemplo, é uma arte. Arte e competência que muitos ainda não aprenderam, ou não desenvolveram de forma adequada com o passar dos anos.

Por tudo isso, a psicoterapia deveria ser uma questão primária e habitual na vida de todo o indivíduo; ela conduz o sujeito ao processo de interiorização de seu self, buscando compreender como esse sujeito se construiu como ser no mundo, como resultante de seus relacionamentos. E a partir desse processo de (re)construção e análise sobre ideias pré-concebidas, percepções disfuncionais sobre si e sobre o outro, é que a terapia se pauta. Promovendo um encontro do sujeito com o seu “eu” autêntico e consciente de suas fraquezas e forças para que ele não tenha medo do silêncio, pois ele “produz” coisas extraordinárias, como os frutos da paz da árvore filosoficamente descrita por Schopenhauer.