Muitos de vocês já devem ter ouvido falar em René Descartes (1596-1650), filósofo francês, físico e matemático que empreendeu a dúvida absoluta como método para se chegar ao conhecimento de todas as coisas; contudo, para se alcançar a verdade, segundo esse princípio, seria preciso duvidar de tudo o que já fora dito. Estou descrevendo um filósofo do século XVII, período onde a filosofia e as ciências estavam conectadas e intimamente ligadas à Igreja Católica, portanto, o pensamento era subordinado ao dogma da Igreja. Descartes, rompe com essa tradição da filosofia aristotélica e medieval para criar seu próprio método filosófico conhecido em latim – Cogito, ergo sum – tradução literal: Penso, logo sou.

Rejeitar qualquer coisa que suscite a menor dúvida, essa era a pedra fundamental do método de Descartes; que consistia em criar uma dúvida sistemática, filosoficamente construída para eliminar todas as possibilidades de incertezas. O pensamento filosófico nos ensina que sempre haverá um caminho longo e árduo a seguir para se chegar à verdade; não é diferente com o método proposto por ele. Primeiro passo: negar aquilo que se apresenta em sonhos, pois eles não se baseiam em fatos reais. Negar aquilo que se baseia nos sentidos (cinco sentidos), pois eles podem gerar enganos, eles não são totalmente confiáveis.

Isto posto, os convido a adentrar ao mundo da “Psicoinlógica”, um lugar onde tudo é possível. Uma dimensão plural e livre, neste mundo nada é o que parece ser, as crenças se tornam realidade; até mesmo um elefante, pode se tornar uma cobra, um tronco de árvore, entre outras coisas. Vocês não acreditam?

Então, deixe-me contar uma estória sobre sete sábios cegos que viviam em “Psicoinlógica”; lá seus habitantes viviam em relativa paz e júbilo, não havendo brigas, disputas ou violência entre eles; em caso de dúvidas recorriam aos sete sábios cegos para sanar suas pendências, contendas e mesmo brigas conjugais. Mas, entre os sábios havia uma competitividade acirrada e vez por outra, eles discutiam para tentar eleger o mais sábio.

Certo dia, depois de uma longa conversa sobre a Verdade, o sétimo sábio se aborreceu e resolveu ir embora para as montanhas à procura de paz interior e disse aos amigos –, Somos homens cegos e talvez, por isso, possamos ouvir e entender melhor que as outras pessoas –, a verdade da vida. Mas, vocês se dispersam do caminho discutindo como se quisessem ganhar uma aposta, um jogo. Cansei dessa competição! Vou-me embora.

Um dia, um comerciante chegou à cidade montado num belo elefante. Os habitantes de “Psicoinlógica”, nunca tinham visto um animal daquele porte, nem mesmo os sábios cegos, e todos saíram à rua para ver a novidade. Os sábios cegos, rodearam o elefante para tocá-lo e assim, perceber do que se tratava através do sentido do tato; o primeiro sábio cego apalpou a barriga do animal e disse – É muito parecido com uma parede!

O segundo sábio cego, tocando nas suas presas, o corrigiu – É muito parecido com uma lança!

O terceiro sábio cego, que segurava a tromba do elefante, retrucou – É muito parecido com uma cobra!

A mão do quarto sábio cego acariciava o joelho do elefante, e o sábio contestou – É muito parecido com uma árvore!

O quinto sábio gritou, quando mexia nas orelhas do elefante – É muito parecido com um abano!

O sexto sábio cego irritado rebateu – Todos vocês estão errados! O elefante é muito parecido com uma corda! – disse, tocando a pequena cauda do animal.

E alvoroçados, os seis sábios cegos, iniciaram uma discussão. Até que o sétimo sábio cego, descendo das montanhas, apareceu conduzido por uma criança. Ao ouvir a contenda, pediu ao menino que desenhasse no chão a figura do elefante para saber do que se tratava. Quando tateou os contornos do desenho, percebeu que todos os sábios estavam certos e iludidos ao mesmo tempo. Agradeceu ao menino e afirmou – É assim que os homens se comportam perante a verdade. Pegam apenas uma parte, pensam que é o todo, e continuam tolos!

Moral da história, como bem diz, Sua Excelência, o Ministro Luís Roberto Barroso – “a verdade não tem dono”. E ela pode ter vários pontos de vista, como ilustrado no artigo. O que extraímos disso, é que o Brasil, a exemplo dos sábios cegos, está tateando no escuro quando o assunto é sobre educação e ciência. Descartes em 1637, estava preocupado em construir um método científico que pudesse ser utilizado por todos para se chegar à verdade das coisas de maneira gradual e racional e não por relativismo, tampouco, de maneira impositiva de uma classe sobre outra, o que de fato, estamos acompanhando em 2019, século XXI. Sem a Filosofia e a Ciência, estaríamos vivendo em “Psicoinlógica”, dependendo de sábios cegos, para nos guiar sobre os assuntos, dos mais fundamentais aos mais fúteis de nossas vidas, sem mesmo saber diferenciar um do outro.

“Portanto, meu propósito não é ensinar aqui o método que cada qual deve seguir para bem conduzir sua razão, mas somente mostrar de que modo me esforcei por conduzir a minha.” (René Descartes, 1637). Deste modo humilde, o filósofo nos ensina a duvidar da veracidade das coisas que nos são apresentadas como verdades a priori e que a fé desmedida, é uma deficiência à medida que oblitera a capacidade de pensamento livre e crítico.

Cada pessoa possui uma lente diferente para enxergar a vida e por extensão a verdade, não adianta impor ao outro a sua percepção das coisas. Usamos filtros para ver e dar sentido ao mundo que nos rodeia. Captamos e percebemos o mundo através dos nossos órgãos dos sentidos, mas é pela experiência e influência que recebemos no processo de existir que conferimos sentido àquilo que percebemos. Como na fábula dos sete sábios cegos de Heloisa Prieto e John Saxe, (1997). Cada sábio, contribuiu com a sua singularidade e experiência sobre a parte do elefante que estava tocando, o que eles não sabiam é que, para compreender as partes, é preciso, antes, compreender o todo.

Referências:

Heloisa Prieto; John Godfrey Saxe. Lá Vem a História, 1997.
Luís Roberto Barroso. A Vida e o Direito: breve manual de instruções, 2014.
René Descartes. O Discurso do Método, 2011.
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