A arte de saber ignorar supõe, muitas vezes, nos afastarmos de certas situações e inclusive pessoas. Portanto, ignorar é aprender a dizer não; é priorizar as coisas que realmente são importantes para você. Entenda que priorizar não é apenas ignorar o que te prejudica; é reorganizar a vida de forma a encontrar espaços próprios para ser autêntico, estar com pessoas que genuinamente lhe são queridas e sentir-se feliz. A propósito, ser feliz, ou perceber-se feliz, é um estado subjetivo, ou seja, é algo pertinente ao sujeito, é um sentimento individual, particular – é uma escolha pessoal. Ser feliz, é acima de tudo, um ato de coragem! E para isso, é necessário adquirir um olhar mais positivo e também mais realista das pessoas e das situações nas quais você está envolvido. Então, desenvolver o autoconhecimento (conhecimento de si) é de fundamental importância para esse processo, que é gradual e está em constante transformação, como o exemplo da Lei de Lavoisier, postulada em 1785 pelo químico francês Antoine Laurent Lavoisier (1743-1794), a Lei da Conservação das Massas. Considerado o Pai da Química Moderna, segundo ele: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

“A felicidade acontece quando, o que você pensa, o que você faz e diz estão em harmonia” (GANDHI, 1868-1948). Em outras palavras, é ser coerente com o que você pensa, faz e sente; é ser honesto com você, antes de tentar uma suposta honestidade com o outro. E para isso se tornar realidade, é preciso criar estratégias de enfrentamento, que são segundo Lazarus e Folkman (1984), “um conjunto de estratégias cognitivas e comportamentais que a pessoa utiliza para gerir demandas internas e externas que sejam percebidas como excessivas para os recursos do indivíduo”. Isto é, desenvolver intelectualmente respostas adequadas e aprender a lidar com os problemas do dia a dia. É ser autônomo no que diz respeito a suas escolhas. É transformar o conformismo de dizer sim, para tudo e todos, em uma autêntica e corajosa mudança de perspectiva de si, do outro e do ambiente ao qual você está inserido.

E para que essa mudança seja concreta, você precisa estabelecer prioridades e dar a cada situação e pessoa o seu devido valor. Vejamos o seguinte exemplo: “José está endividado no cartão de crédito, sabe que precisa parar de usá-lo e quitá-lo, antes de voltar às compras”, mas a volta às aulas, implica na compra de material escolar dos filhos; e José não negociou com a escola, ou em casa, o valor de tais itens, e compra o material no cartão de crédito aumentando a dívida. Se para José, foi difícil escolher entre o que é de suma importância (quitar o cartão de crédito) e o que poderia ser negociado, é inferir que ele se encontra em conflito interno entre coisas que ele quer e deseja das coisas que ele sabe que não lhe convêm. Em tempo – é preciso esclarecer que coisas e objetos, têm preço, mas pessoas, têm valor, como: merecimento, talento, reputação, coragem, valentia, etc.; me refiro aos valores humanos, como princípios morais e éticos que conduzem a vida de uma pessoa –, e não deveriam ter um preço.

Quando se está vivendo em negação (a não avaliação dos aspectos emocionais) por um longo tempo, é possível não enxergar esse conflito de interesses, e portanto, não saber estabelecer prioridades, e muito menos, saber dizer não às pessoas e às situações que envolvam escolhas. Escolher é antes de mais nada, renunciar a algo; quando se escolhe gastar mais no cartão de crédito que já está comprometido, o sujeito está fazendo uma renúncia de tentar equilibrar as contas ou mesmo tentar equacionar as dívidas. Muitas vezes, ouço no consultório – “Não tenho tempo para resolver todas as pendências que surgem em minha vida”; esse é o mecanismo de defesa mais usado por indivíduos, que não conseguem estabelecer prioridades em sua vida, logo, não têm nenhuma estratégia de enfrentamento para as demandas cotidianas. A sociedade, como um “organismo vivo” e seu ritmo acelerado e alucinante, ditando a velocidade da passagem do tempo, nos hipnotiza e às vezes, nos cega, criando um mundo paralelo, onde os dias parecem não ter mais 24 horas; os compromissos se acumulam e não conseguimos administrar o tempo, trazendo um aumento no nível de estresse e ansiedade que silenciosamente adoece e faz sucumbir às pessoas. Indivíduos ansiosos têm maior probabilidade de prestarem atenção e de processarem estímulos relacionados a ameaças, sobretudo em aspectos que não são importantes, minimizando sua própria capacidade de refletir sobre os acontecimentos.

Como sugestão, crie um tempo para si, priorize sua saúde mental e física; esse deve ser o primeiro passo para a mudança, refletir sobre quais situações e quais pessoas têm valor real para você em momentos que lhe proporcionem paz, que o deixem calmo e relaxado. Sentindo-se mais equilibrado emocionalmente você terá maior probabilidade em aprender a sutil arte de dizer não. Entendendo que não se trata de egoísmo, e sim, de capacidade emocional de distinguir o que é realmente prioridade para você. Saber separar o que é seu problema do problema do outro.

Quando você aprende a exercitar a arte de dizer não para filhos, cônjuges, familiares, amigos e colegas de trabalho, as críticas virão à galope, mas elas (as críticas) não definem quem você é, elas não são você. Fortaleça a sua autoestima e saboreie cada passo de seu processo de transformação para uma existência autêntica e honesta consigo mesmo. Dizer não, é um exercício de desprender-se do verniz social da hipocrisia, onde pessoas e as vezes, em reuniões familiares fazem questão de estarem juntas, apenas se tolerando e não por afinidade. Dizer não para uma situação dessas é libertador, é um triunfo pessoal. Cultivar valores que irão basear suas decisões e demonstrar quais os princípios que regem a sua vida, é garantir uma forma pacífica e honesta de conviver com as pessoas, mesmo aquelas que um dia o prejudicaram, ou o ignoraram.

A sabedoria vem com o tempo e com o entendimento das experiências vividas; a compreensão dos vínculos que se quer manter e os que se deseja romper, sem com isso, ter um “peso” na consciência por ter escolhido dizer não, é refletir e dar se conta de deixar ir a pessoa a quem jamais se preocupou em dizer sim para você. “As emoções são programas de ação”; “os sentimentos, por definição, são as experiências mentais que nós temos daquilo que se passa no corpo”, essas citações são de António Damásio, médico neurologista e neurocientista português, que resumidamente nos ensina que as ações são vistas, enquanto que os sentimentos você não pode ver; então, seja coerente com os seus sentimentos e aja de acordo com eles, se sente vontade em dizer não –, então diga, assuma e seja feliz!

Difícil? talvez? – nem tanto! É apenas uma questão de mudança de hábitos. Para tanto, trouxe um pensamento do sistema filosófico conhecido como Estoicismo, do filósofo grego Epicteto (50 d.C. – 135 d.C.), do livro “Discursos”, “A principal tarefa na vida é simplesmente esta: Identificar e separar questões de modo que eu possa dizer claramente para mim mesmo quais são externas, fora de meu controle, e quais têm a ver com as escolhas sobre as quais eu, de fato, tenho controle”. O que o filósofo Epicteto, quer nos dizer é – Toda tentativa de controle é uma ilusão, não podemos controlar o outro, seus julgamentos, seus comportamentos; aquilo que está externo a nós é incontrolável. Mas os nossos pensamentos, nossos conflitos, nossas questões e nossas escolhas, sim. Essas são “as coisas”, que podemos trabalhar e desenvolver um relativo controle. O que seria mais eficiente? Tentar mudar as situações e pessoas negativas que estão fora do nosso alcance, ou mudar a forma que se percebe essas pessoas e situações?

Vejamos um exemplo: “Eu sou responsável por aquilo que digo, mas, não sou responsável, por aquilo que você interpreta daquilo que digo”. Posso ter controle sobre a concepção ética e moral do outro em uma situação dessa? – não! Mas, tenho total controle e consciência dos meus princípios éticos que permeiam minha conduta moral.

Isso é muito comum em uma sociedade que se comporta como no “Mito da Caverna”, livro VII da República de Platão (427 a.C.); a narrativa é uma metáfora de como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona, através da luz da verdade. Em síntese, Platão, faz uma crítica à condição dos homens, onde todos se encontram aprisionados na escuridão da caverna e enxergam o mundo através de uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. Clarificando a ideia de Platão –, a escuridão da caverna, simboliza as pessoas egocêntricas, narcísicas, conformadas, simplórias e desprovidas de empatia e de coragem para mudar o status quo, convivendo num mundo próprio sem nunca terem visto uns aos outros nem a si mesmos. Estão acorrentadas às crenças silenciosas, medindo o outro com sua própria régua; enxergando o mundo de maneira estreita, apenas por seu ponto de vista.

Dizer não a essas convenções, é uma maneira de se desapegar e não se angustiar porque você foi capaz de sair da “caverna”, avançou em direção da luz, do amor próprio, da autoestima, da autoeficácia, da liberdade de ser quem você deseja ser, e não ser o que os outros querem que você seja. Assumir o controle de suas escolhas e consequências, é ser protagonista de sua história. Entretanto, compreender que incertezas fazem parte da vida, é de suma importância para seu equilíbrio e bem estar, e até mesmo para a sua saúde mental. Quando você diz não para alguém ou situação, você está dizendo sim para si mesmo. A vida é feita de escolhas. Lembre-se disso.