Toc, Toc, Toc.

Quem bate?… É o Transtorno Obsessivo Compulsivo! Vá embora! estou muito ocupada, arrumando e organizando a casa, não tenho tempo para visitas. Esse diálogo, poderia ter sido extraído do livro “A menina que organizava”, de Eve Ferretti e Fabiola Werland (2016), que conta a história de uma menina cuja obsessão por limpeza e organização a privou de levar uma vida socialmente produtiva e feliz. Ou do personagem Abel (o coelho), do desenho infantil “Winnie-the-Pooh” – Disney (1926), e mais conhecido como o “Ursinho Pooh”. O escritor inglês A. A. Milne (1882-1956), construiu seus personagens, inspirado nas histórias e vivências de seu filho Christopher Robin e seu ursinho de pelúcia Winnie, que mais tarde seria mundialmente conhecido como “Ursinho Pooh”.

Existem grupos de estudiosos que acreditam que os personagens do desenho, tenham sido inspirados em transtornos mentais. Será mesmo? Vamos analisar Abel, o coelho; ele precisa ter todas as coisas em seu entorno completamente simétricas, organizadas e qualquer interferência nessa ordem o deixa extremamente angustiado e irritado. Sua preocupação exagerada com a organização, faz com que, conte, reconte, organize, reorganize tudo e todos em sua vida. Caso, algo esteja fora do lugar ou ordem previamente estabelecida por ele, todos irão sentir sua ira; e por fim, Abel tem tendência a sentir-se extraordinariamente importante e super valorizar seu sistema de crenças. Sim, esses comportamentos correspondem ao Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC).

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais em sua 5ª edição, o Transtorno Obsessivo Compulsivo é caracterizado pela presença de obsessões e/ou compulsões. As obsessões são pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes que são vivenciados como intrusivos e indesejados, enquanto compulsões são comportamentos repetitivos ou atos mentais que um indivíduo se sente compelido a executar em resposta a uma obsessão ou de acordo com regras que devem ser aplicadas rigidamente. O TOC até o DSM-5, estava classificado como Transtorno de Ansiedade, pois combina vários sintomas e compartilha uma série de características, como a presença de comportamentos repetitivos, tem curso semelhante e resposta ao tratamento.

O TOC é o devastador ponto culminante dos transtornos de ansiedade. Não é incomum para alguém com TOC experimentar ansiedade generalizada grave, ataques de pânico recorrentes, esquiva debilitante e depressão profunda, todos ocorrendo simultaneamente aos sintomas obsessivo-compulsivos. Com o TOC, estabelecer um ponto de apoio de controle e previsibilidade sobre acontecimentos perigosos da vida parece ser tão desanimador, que as vítimas recorrem a magias e rituais (BARLOW & DURAND, 2015).

Para entendermos melhor a complexidade do TOC em relação a outros transtornos de ansiedade, nada melhor que exemplos! Um transtorno de ansiedade usualmente tem seu foco de perigo, ou agente estressor em um objeto ou em uma situação externa, ou ainda e mais provável na lembrança dessa situação. A ansiedade é um estado de humor negativo caracterizado por sintomas corporais de tensão física e apreensão em relação ao futuro (American Psychiatric Association, 2013). Ela é uma emoção! Sua causa é multifatorial e envolve duas dimensões: a biológica e a psicológica. Seus “gatilhos” ansiogênicos são a sensação de impotência de não poder prever ou controlar eventos futuros. Para uma leitura mais detalhada e menos técnica sobre a ansiedade, recomendo meu artigo sobre o tema “Transtorno de Ansiedade: o mal do século XXI?”, (2017).

Vejamos o seguinte exemplo: não pense em um elefante branco com bolinhas azuis, não pense! Se você realmente se concentrou usando todas as suas capacidades e funções cognitivas para não pensar em elefantes brancos com bolinhas azuis, e, sentiu dificuldades para não pensar em elefantes brancos com bolinhas azuis, terá, minimamente vislumbrado o mundo de uma pessoa com TOC. Pois para essas pessoas, é praticamente impossível suprimir um pensamento ou imagem sugerida. Essas pessoas travam uma guerra diária com seus pensamentos intrusivos e com imagens recorrentes e persistentes, que se tornam obsessões; na busca por aliviar a ansiedade, cria-se rituais, que são os comportamentos compulsivos. Aqui ilustrados pelos personagens infantis, “A menina que organizava” e “Abel, o coelho”.

O TOC é um transtorno relacionado com a ansiedade que faz com que o cérebro fique focado em alguns medos ou obsessões, como por exemplo, a presença de germes e bactérias, doenças contagiosas que levam o indivíduo a desenvolver o ritual de limpeza, como: lavar as mãos seguidamente, tomar banhos inúmeras vezes ao dia, usar álcool em gel, ou bactericida em todas as coisas antes de tocar e após tocá-las. Diferentemente da ansiedade pura que está com o seu foco no exterior, o TOC está voltado para dentro do indivíduo, em seus medos, suas frustrações, angústias, seus atos mentais e não tem uma conexão realista com o que visam neutralizar; ter medo de germes é algo que todos temos, mas desenvolver comportamentos disfuncionais para evita-los, são o diferencial entre mania e comportamento compulsivo-obsessivo.

Uma das características do TOC, é a diversidade de suas manifestações – medos de contaminação/limpeza; dúvidas/checagem; ordem/organização; dificuldade em descartar ou se desfazer de pertences/acumulação; preocupação exagerada com a aparência/transtorno dismórfico corporal; tiques/estereotipias; transtornos alimentares, ansiedade de doença, impulsos ou fantasias sexuais inapropriadas; transtornos disruptivos do controle de impulsos e da conduta; arrancar os cabelos/tricotilomania; beliscar a pele/escoriação[skin-picking]; além de outros, também estão relacionados ao TOC e podem variar ao longo da evolução da doença.

Para um mergulho no universo do TOC, existem inúmeros filmes, desenhos e séries de tv, repletos de personagens com os comportamentos acima descritos. Vajamos alguns: Pepe Le Gambá – compulsão sexual; Coyote – compulsão de capturar o Papa-Léguas; Melvin Udall (Jack Nicholson), “Melhor Impossível” (1997), compulsão por simetria; Sheldon Cooper (Jim Parsons), The Big Bang Theory, ele é tão obsessivo com rituais e rotinas que leva seus amigos à quase loucura junto com ele. Além de filmes que tratam do assunto de maneira engraçada, como o brasileiro “TOC – Transtornada, Obsessiva e Compulsiva (2017), e o Espanhol “Toc, Toc” (2017), disponível na NetFlix, divertidíssimo!

Segundo a Psiquiátra Drª Ana Gabriela Hounie, o TOC é ainda um importante fator de risco para separações e divórcios em razão dos constantes conflitos que os sintomas provocam na família, para demissões no trabalho em razão da interferência na produtividade e para ter sucesso em levar adiante uma carreira. Compromete, portanto, de forma inequívoca a vida do indivíduo e de sua família. Por todos esses motivos o TOC deve ser considerado um transtorno mental grave, comparável em gravidade e em anos de incapacitação a transtornos psiquiátricos como a esquizofrenia e o transtorno do humor bipolar. Suas causas, ainda não estão bem esclarecidas; certamente, trata-se de um problema multifatorial. Estudos sugerem a existência de alterações na comunicação entre determinadas zonas cerebrais que utilizam a serotonina, aqui no tocante a dimensão biológica. Fatores psicológicos e histórico familiar também estão entre possíveis causas desse distúrbio de ansiedade.

O fator psicológico está presente como um fenômeno que desencadeia os pensamentos mágicos, as crenças e rituais, ele não é por si só, a causa. Mas se não for confrontado ou questionado pelo sujeito com o transtorno, sobre o prejuízo em sua qualidade de vida e a real funcionalidade de seus comportamentos ritualísticos, dificilmente ele se perceberá com TOC, pois suas crenças o impedem de ressignificá-las. Lembram que em meu último artigo explorei o assunto sobre Crenças? Vejam o quanto elas podem ser prejudiciais, se o sistema de crenças do sujeito for rígido e inflexível; mais uma vez o componente emocional sinaliza a importância do equilíbrio, de rever suas verdades, de aprender a aprender, e ter humildade acima de tudo.

Não podemos estar certos sobre tudo o tempo todo; quando sua paz interior estiver ameaçada, procure a ajuda profissional de um Psicólogo (a), não permita que suas questões existenciais se tornem pensamentos obsessivos a ponto de você desenvolver rituais, para tentar aliviar a ansiedade que eles trazem e, por tabela desenvolver comportamentos desadaptativos, que o levarão ao fundo do poço do qual muitos não conseguem sair. Lembrem-se hábitos e manias todos nós temos em maior ou menor grau e que em algum momento de nossas vidas eles tenham nos trazido algum desconforto, mas no TOC, há um real prejuízo social, pessoal e profissional, quando não coloca a saúde do sujeito em risco. Se você está dentro do espectro ou conhece alguém que está, então, dê um toc na pessoa e indique leituras sobre o assunto e caso conheça, um profissional certificado.

By |2019-01-08T17:15:12-03:00janeiro 8th, 2019|Categories: Psicologia|Tags: |0 Comments

About the Author:

Cristina Lima
Psicóloga e Pós-graduada em Avaliação Psicológica. Psicoterapeuta com atuação em Avaliação Psicológica e Orientação profissional, incluindo aposentados com uma proposta de construção de um novo projeto de vida sustentado pela promoção do autoconhecimento, ressignificação e descobertas de novas competências, diante da nova fase da vida e a partir dela.