A ansiedade é complexa e misteriosa, como Sigmund Freud observou muitos anos atrás. Ainda hoje, no século XXI, quanto mais estudamos a seu respeito, mais intrigante nos parece. A “Ansiedade” é muito mais que um tipo específico de transtorno. É uma emoção tão envolvida com a psicopatologia, que essa discussão explora sua natureza geral, tanto biológica quanto psicológica¹.

Virou lugar comum falar sobre ansiedade e o mal que ela causa, e há hoje no mercado um sem número de programas de televisão, livros de autoajuda, acampamentos de meditação e pseudo terapeutas falando sobre como “curar” a ansiedade ou evitá-la. Há também um número crescente de fármacos para o alívio da tão temida ansiedade. Mas o que ela é? O que causa? Por quê ficamos ansiosos? Vamos começar a entende-la por sua definição simples: Ansiedade é um estado de humor negativo caracterizado por sintomas corporais de tensão física e apreensão em relação ao futuro (American Psychiatric Association, 2013; Barlow, 2002). Aqui, já identificamos que a ansiedade envolve duas dimensões, a biológica por seus sintomas físicos e a psicológica pelo seu sentido subjetivo de apreensão em relação a algo, e, que este algo se orienta para o futuro. Portanto, ela é uma emoção. As emoções desempenham enorme papel em nossas vidas diárias e podem contribuir significativamente para o desenvolvimento da psicopatologia (Barret, 2012; Gross, 2014; Kring & Sloan, 2010; Rottenberg & Johnson, 2007).

Vejamos agora qual seria a relação da emoção entre medo e ansiedade. Considere o medo, você está voltando para casa depois de um dia longo de trabalho, desce no ponto e percebe que dois estranhos o perseguem; está de noite, logo escuro, você sente uma onda de excitação percorrer todo o seu corpo, pois relacionou que dois estranhos andando próximo a você de noite pode ser uma situação potencialmente perigosa. Essa reação de alerta que se ativa durante a emergência de ameaças potenciais à vida é chamada resposta de fuga ou luta. Ela foi estudada pelo primeiro teórico das emoções, Charles Darwin (1872)², que teorizou que esse tipo de reação parece ser programado em todos os animais, incluindo os seres humanos, o que sugere ter uma função útil. Pois bem, essa reação física segundo o fisiologista Walter Cannon (1929), ativa nosso sistema cardiovascular, elevando a pressão arterial e a diminuição do fluxo sanguíneo para as extremidades, o sangue é redirecionado para os músculos esqueletais, onde fica disponível para os órgãos vitais que podem precisar em caso de emergência. Em outras palavras, as pessoas ficam “brancas de medo”, ou seja, ficam pálidas como resultado da diminuição do fluxo sanguíneo na pele. O que acontece se você experimentar a resposta de alarme de medo quando não há o que temer – isto é, se for alarme falso? Os sintomas de ansiedade podem chegar a níveis tão intensos que pode gerar um ataque de pânico, a pessoa sente uma onda de excitação percorrer todo seu corpo, uma experiência abrupta e de desconforto agudo, acompanhada por sintomas físicos já mencionados. Mais uma vez, a relação psicológica e biológica estão intimamente no desenvolvimento do transtorno de ansiedade. Mas surpreendentemente, em quantidade moderada, a ansiedade é boa para nós. Há estudos (Yerkes & Dodson, 1908), que afirmam que melhoramos nosso desempenho quando estamos um pouco ansiosos. Então, nem tudo é ruim em relação à ansiedade; o pulo do gato aqui, é o equilíbrio entre o perceber e o sentir. Recapitulando o que foi dito até aqui para verificarmos se as três perguntas feitas no início deste artigo foram respondidas, – O que é a ansiedade? Uma emoção. O que causa? Reações emotivas excessivas com múltiplas fontes. Por quê ficamos ansiosos? Sensação de impotência de não poder prever ou controlar eventos futuros.

Freud, já havia previsto o quanto é complexo fazer um enquadramento deste transtorno, para ele a ansiedade era uma reação psíquica ao perigo. Outros teóricos trazem contribuições de diversas áreas de estudo para uma integração no olhar sobre o tema, para Barlow et al., 2013, nós herdamos uma tendência a sermos tensos, irritados e ansiosos, ou seja, genética. Para os psicólogos sociais, acontecimentos estressantes como – casamento, divórcio, demissão, luto, pressões para se destacar na escola e etc. Alguns ainda podem ser físicos, como uma lesão ou enfermidade, aspectos de vida social que podem desencadear vulnerabilidades psicológicas e biológicas.

E se identificar a ansiedade, saber a sua causa e o por quê, já tem se mostrado difícil para os cientistas e pesquisadores da área; imagine catalogar sob rigorosos critérios todos os transtornos associados à ansiedade, que incluem transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de pânico e Agorafobia, fobia específica, transtorno de ansiedade social, transtorno de ansiedade de separação e mutismo seletivo. Agora com um pouco mais de informação sobre o que é e suas possíveis causas, pois como já dito, a ansiedade é de múltiplos fatores e está associada com as emoções. Por isso, é importante salientar o quanto precisamos nos manter emocionalmente equilibrados, fortalecidos, ter flexibilidade com as crenças nucleares que construímos. Sabemos que o controle é uma ilusão, ainda assim, tentamos controlar o outro, o tempo, as circunstâncias que estão fora do nosso alcance, e isso, nos traz frustração, que é uma sensação negativa e nos leva à ansiedade e se torna um ciclo vicioso e somático.

Diante da velocidade com que os acontecimentos climáticos, catastróficos, atentados terroristas, uma avalanche de informações que nos invade diariamente, sentir-se ansioso é perfeitamente normal; como lidamos com essa sensação é particular e está associada a um conjunto bio-psico-social-espiritual, dimensões que tornam o ser humano único no seu jeito de ser com ele mesmo, com o outro e com o mundo; portanto, reduzi-lo a um rótulo e medicá-lo diante de dores existenciais é negar-lhe o seu papel no mundo como ator principal e ativo no desenvolvimento de um autoconhecimento, pensar sobre seus sentimentos, suas emoções e o que os ativa é refletir sobre as relações das partes com o todo, onde somos um fragmento de um todo harmonioso e belo que se completa a cada dia de nossa existência. Somos uma construção de nós mesmos, não estamos e não ficaremos prontos como uma obra de arte finita, pronta e acabada; estamos em contínua evolução e de construção de conhecimentos, de descobertas, nos aprimorando, lapidando os excessos, e isso, traz ansiedade. Nesse sentido ela é uma emoção positiva, pois nos mostra (para quem quer ver) que não controlamos nada. Aprender a viver e aceitar o mundo com as suas benesses e dificuldades, é por à prova a teoria de Charles Darwin (1872); o animal que melhor se adapta às condições adversas, será aquele mais capacitado para passar seus genes para as próximas gerações. Sei que não é fácil administrar tantas atividades e dar conta da expectativa que nos é posta pela sociedade, mas não é impossível; procure ajuda de um profissional Psicólogo certificado.

¹Barlow & Durand, Psicopatologia uma abordagem Integrada, 2016 p.125.

²Darwin, C., A Origem das Espécies.