Opinião do Autor por Carlos Fonseca.

Não dá mais para simplesmente tentar ignorar ou “varrer pra debaixo do tapete” as mazelas, os escândalos, os absurdos ataques aos cofres públicos, as violações ao direito, às leis e à constituição do país e à sua soberania, perpetrada até por quem a deveria defender. Isso, por conta da absurda inversão de valores que tomou conta do país nos últimos anos (principalmente ao longo das últimas décadas). Com o aumento cada vez maior da imoralidade, da injustiça, da corrupção, da hipocrisia, e da contradição entre discurso e realidade por parte de governantes, políticos e autoridades nos mais diferentes níveis, até mesmo nos mais altos escalões dos 03 poderes que sustentam (e devem sempre sustentar) uma verdadeira democracia nos países ditos “democráticos”.

É fato que nos últimos anos o país conquistou grandes avanços, principalmente no combate à corrupção e à criminalidade, mais notadamente após o início das operações desencadeadas em conjunto do MP e Polícia Federal (que passaram a atingir até os “poderosos” e as pessoas então consideradas “intocáveis”). As operações mais notáveis são “Satiagraha” (deflagrada em 2008 e ‘sepultada’ pelo STF em 2015) e a “Lava-Jato”, esta, a maior e mais emblemática de todas. Iniciada em 2014 sob grande clamor popular e hoje alvo de constantes ataques de setores envolvidos e coniventes com a corrupção. Nisto se inclui partidos políticos e autoridades alvo de seu alcance, já com inúmeras investigações e denúncias apresentadas pelo MP.

É fato também que o incansável e brilhante empenho de promotores e juízes do MPF e da Justiça Federal, que, num trabalho integrado e conjunto com a Polícia Federal, em diversos Estados, já levou à cadeia inúmeros e poderosos empresários e políticos, trazendo à sociedade a sensação de justiça e punição aos corruptos. Hoje incomoda e assombra alguns, “autoridades” e “políticos”, que tentam de todas as formas frear e impedir o avanço das investigações, mesmo ante o clamor público de toda a sociedade, que já, anteriormente, deu um “basta” e através da mobilização de milhões de pessoas, obrigou o Congresso a votar e criar a “Lei da Ficha Limpa” para impedir a candidatura e ascensão de criminosos ao poder. Contudo, ainda há o risco representado pela ação de autoridades corruptas que se acham ou se julgam acima e fora do alcance da lei, que precisam, de qualquer forma e a qualquer custo, ser neutralizado pela sociedade.

Por essa razão, não podemos mais adotar ou manter a postura omissa e silenciosa diante de tudo isso, que atenta até contra as liberdades individuais, ameaçando e tentando punir a crítica objetiva e séria. Tentando amordaçar, inclusive, a imprensa, o chamado 4º poder de qualquer país. Não a imprensa marrom, corrupta, irresponsável, mas aquela independente e imparcial, investigativa, séria, informativa, composta por jornalistas íntegros, verdadeiros, honrados, conscientes de sua missão profissional, como tantos que tantas vezes e tão corajosamente (e nos mais difíceis momentos), ousaram buscar e trazer ao conhecimento público a verdade de fatos que até mesmo no submundo da corrupção e das mais sangrentas ditaduras aterrorizavam e chocavam toda a humanidade.

Não fosse a ação e a coragem desses jornalistas, não teríamos tido a libertação de regimes sangrentos e totalitários em diversos países da Europa, África, Ásia, América; não teríamos assistido a renúncia de Nixon, nos Estados Unidos. Nem saberíamos do assassinato de milhares de inocentes em diferentes países e momentos da história, ou da perseguição política e ideológica de dezenas de líderes que lutam pelos ideais de liberdade e justiça em seus países, assim como em Cuba, Venezuela, Angola, Síria e Turquia, só para citar alguns.

Hoje, aqui no Brasil, o que vemos é a tentativa de subverter a ordem e os valores morais e familiares de uma sociedade, a imposição de uma cultura de total liberdade e ilimitados “direitos”, sem consequências ou responsabilidades; a idolatria a falsos “heróis” e “mitos”, como artistas, políticos, jogadores,… enquanto a sociedade chora e agoniza; enterra seus entes queridos por falta de assistência médica digna, é vilipendiada pelo abuso de poder e achaque de autoridades que continuam agindo impunemente à margem da lei, é escravizada em subempregos (quando ainda os tem) para tentar sobreviver e alimentar seus filhos, suas famílias…

E enquanto isso, continuam proliferando empregos e nomeações imorais de parentes, afilhados e apadrinhados políticos nos gabinetes de deputados, senadores, ministros, juízes, com salários e benesses inadmissíveis para um país em crise e onde mais de 1/3 de sua população economicamente ativa, tenta sobreviver com apenas 1 salário mínimo; onde milhares de jovens e talentosos profissionais se especializam nas mais diferentes áreas de conhecimento, e não tem oportunidade de trabalho e nem de desenvolvimento profissional…

Até quando? Até quando vamos ter que continuar convivendo com o desmonte da cultura e da educação, da pesquisa e do desenvolvimento, e cultuando os “heróis” dos “Big Brothers” da vida, verdadeiro festival de imbecilidades, enquanto verdadeiros HERÓIS, como os bombeiros de Brumadinho, os Professores em sala de aula, e os policiais nas ruas, são ignorados, esquecidos, mal remunerados ou abatidos pelas balas disparadas pelo gatilho das autoridades comprometidas com o crime e a corrupção?

Até quando vamos ter que conviver com falta de assistência médica, com postos de saúde e emergências hospitalares fechados por falta de verbas ou funcionários, enquanto governantes, juízes, promotores, encastelados em seus majestosos gabinetes, fingem nada ver, nada saber e nada fazem, a não ser quando o clamor e a repercussão pública tornam isso visível para toda a sociedade?

Até quando vamos ter que conviver com a perseguição implacável do Estado no sentido de punir e arrecadar cada vez mais receitas, com a fiscalização ou imposição de multas indevidas e ilegais, muitas vezes pelo exercício de atividades informais por falta de outras opções de trabalho ou por simples e inexistentes “infrações” de trânsito, provenientes de uma verdadeira “indústria” que assalta a sociedade, à revelia da lei e (salvo raríssimas exceções) sob a omissão e conivência da justiça e do MP?

Até quando vamos ter que conviver com uma educação pobre e medíocre, por falta de uma política mais consistente, com conteúdo e currículos realmente focados no ensino de matérias e disciplinas mais úteis e essenciais, do que simplesmente aprender o “be-a-bá” ou discutir e disseminar a cultura da “liberdade de gênero”, enquanto milhares de jovens chegam ou saem das universidades sem sequer saberem escrever ou se expressar corretamente?

Até quando vamos ter que conviver com transportes e serviços públicos de péssima qualidade, com riscos à saúde e à segurança da população, e violação até ao direito de ir e vir das pessoas, por omissão, indiferença e irresponsabilidade de políticos em todas as esferas e instituições que deveriam fiscalizar e defender a sociedade?

Até quando vamos ter que conviver com a ganância e manipulação de preços de alimentos e medicamentos, com a adulteração de produtos, a maquiagem de embalagens, a redução de peso ou quantidade, e o desenfreado aumento de valor, por inexistência de fiscalização e punição para tais crimes e abusos?

Até quando vamos ter que ficar expostos a inundações, infecções, desabamentos, acidentes, causados por irresponsabilidade profissional de órgãos e Conselhos que só se preocupam com receita e com os cabides de emprego que tais entidades propiciam?

Até quando vamos ficar expostos e reféns de empresários inescrupulosos, governantes corruptos, autoridades omissas, serviços inexistentes, injustiças flagrantes, mentiras demagógicas e irresponsáveis de políticos e partidos, seitas e organizações criminosas e impunes?

Até quando???

Compactuar ou ser conivente com todo esse estado de coisas é deixar que o país descambe para o caos, para a degradação moral de seus valores e sua estrutura familiar e para a dominação e escravização de toda a sua sociedade.

Texto por: Carlos Fonseca