Olá, galera. Hoje trago o texto de um colega de profissão que fala sobre Burnout e a Síndrome da Compaixão, segue o texto abaixo!

BURNOUT é uma palavra em inglês que está relacionada com uma sensação de exaustão emocional. Como se alcançássemos o limite para lidar com os desafios na profissão. Nenhuma atividade profissional é livre de desafios emocionais, mas algumas delas lidam diretamente com a ansiedade em níveis acima do cotidiano da maior parte da população. Imagine a cabeça do palito de fosforo incandescendo: é efetiva, brilhante, funcional e, depois, apaga. Um palito de fósforo queimado não oferece mais fogo, energia, está esgotado no seu principal potencial. To burn, em inglês, significa queimar e burnout significa queimado, estafado ou, melhor, esgotado. O esgotamento emocional relacionado à profissão foi apresentado para a comunidade científica como uma justificativa para um mal cada vez comum: a exaustão oriunda da atividade profissional. É objeto de estudos dos psicólogos por quem eu sempre tive uma admiração imensa. A enfermidade da alma sempre me chamou mais atenção quando comparada àquelas físicas. Esse sofrimento é incisivo e cruel. eu posso garantir.

Por que os médicos veterinários sofrem mais? São inúmeras as justificativas, mas a principal dela é que vemos mais pacientes morrerem quando somos comparados com outras profissões ligadas à cura. Sofremos pelo nosso paciente – mas não estamos lá para sofrer – somos acionados para curar. E é assim que muitas vezes somos tratados. Uma parte da sociedade deixa claro que se gostássemos de animais, não seríamos médicos veterinários, não receberíamos, faríamos por amor. Se eu recebo, eu não amo os animais? Ao final de tudo, precisamos sofrer. Eu tenho esse direito também, mas não me jogue direto para a patologia comportamental chamada Síndrome da Compaixão. A cura é responsabilidade integral do médico veterinário? Outra crueldade difundida na sala de espera dos atendimentos veterinários. Não. Somos uma das principais ferramentas. Se a doença não tem cura, se o retrovírus é sorrateiro, se os impostos que o governo determina inviabilizam os exames complementares ou mesmo a violência urbana atrapalha as idas frequentes à clinica (sim, uma visita e milhões de mensagens no celular não ajudam o seu animal). Não temos culpa. Outro dia eu pensei: quantas “bicheiras” que eu escutei desde ontem, tumores enormes que surgiram da noite para o dia da consulta, quantos “pontos abertos” por negligência e quantos animais que não foram submetidos aos exames por falta de tempo, comprometimento e possibilidade financeira? Muitos, muitos, e com o caos no País, quase a maioria. E se eu apontasse o dedo inquisidor para quem deveria ter levado logo, tivesse dinheiro ou tempo disponível? Será que seria um Burnout ao contrário? O médico veterinário é preparado para orientar, parte do trabalho é da família humana do paciente. Quem sofre do esgotamento emocional não consegue se defender do contrário. “Por que você não atende o celular? Só vou pagar se ficar bom! A culpa é sua!” Se eu fiz o meu trabalho (e quem pode avaliar o meu trabalho sou eu e os meus colegas de profissão), eu não tenho culpa. Foi uma fatalidade. Por que não somos respeitados como médicos humanos? Nós vivemos mais tempo que os nossos pacientes e, assim, acompanhamos o nascimento até a morte. Outra pressão emocional. Muitas vezes relacionado com uma oportunidade interessante e única de acompanhar toda a vida de um paciente, pode ser também responsável por aumentar o sofrimento pela ligação emocional entre os médicos veterinários e seus pacientes. Chega de textão porque agora quem precisa escrever são os meus colegas que estão se sentindo angustiados. Colegas, estudem, preparem-se, sejam gentis e faça o que puder para o seu paciente, mas não façam o trabalho dos outros. Fazer o trabalho do outro, não cobrar ou mesmo atender fora dos horários programados é aceitar a transferência de responsabilidade. Aos 23 anos de formado, eu tenho o orgulho de dizer que encontrei mais pessoas boas do que ruins no meu consultório. Eu amo meus clientes, mas eu me amo também. Desculpem o desabafo.

A campanha é com celular porque é através dele que muitas vezes somos desrespeitados.

Texto: Dr Carlos Gabriel.