Olá, pessoas lindas que acessam o Blog Rosa Valente! Pergunto, quem já foi em uma feira livre na sua cidade ou bairro? Aquela que expõe frutas, legumes, verduras, flores, frango, peixe e coisas que só encontramos lá. Acho que muita gente!

Pois é, em dos meus dias livres, resolvi comer aquele pastel de queijo gostoso com caldo de cana em uma das feiras livres no meu bairro, sem me preocupar em estar vestida formalmente, sem culpa pelos quilinhos a mais, sem maquiagem, sem ligar para o esmalte na unha que descascou ou com o cabelo e sem celular. Venho compartilhar com vocês essa experiência, um olhar que surgiu depois de ter frequentado inúmeras vezes o mesmo ambiente desde criança. Agora me surpreendo como frequentei um lugar sem percebê-lo, no automático. Mas afinal, o que tem de especial em uma feira de rua?

Enquanto comia meu pastel, olhava as pessoas que circulavam e de repente ouço um feirante falar alto com os outros com um tom de voz agradável e descontraído:

“gente, chegou à concorrência desleal!”. Curiosa, me virei para olhar. Era um rapaz sem pernas, amputado quase na altura dos quadris que se deslocava em cima de um carrinho de rolimã, meio que adaptado para que ele pudesse ficar com mobilidade suficiente para vender seus saquinhos de limão pendurados em seu pescoço. O mesmo rapaz ainda carregava uma plaquinha de papelão onde estava escrito limão a jato. Ele gritava “olha o limão verdinho e levado até você freguesa! Aqui a barraca vai até o freguês, é a modernidade dos tempos!”. Sorridente, fazia o carrinho que o sustentava correr com as mãos, cobertas com uma luva de borracha grossa. Eu, em um ato de impulso, saio atrás daquele vendedor de limão com o pastel e o meu caldo de cana já pela metade, acompanhando sua trajetória ao longo da feira. Sem a menor pretensão, fui observando um feirante que possuía um cacho de cerejas pendurado na orelha como brincos, outro que falava “o meu peixe veio das águas mais frescas freguesa!”. O feirante que vendia ovos falava em voz alta “os meus ovos vem direto de galinhas especiais porque são as minhas, garanto a procedência!”. O florista falava alto, “olha as flores para enfeitar sua casa, com essa beleza toda ela vai se tornar um lar, freguesa!”. O verdureiro chamava a atenção com o bordão do momento, olha a dieta freguesa o verão vem chegando e a alface ajuda e sua barriguinha agradece! O vendedor de frutas fazia propaganda do mamão e da banana chamando atenção assim: “olha o mamão para ajudar a liberar o que não presta no seu corpo e a banana para acabar com a câimbra, freguesa! Tudo ao alcance de suas mãos!”. O vendedor de laticínios fazia propaganda da seguinte forma: “Para a romântica, nada melhor do que um queijo com goiabada, Romeu e Julieta para sobremesa!”

Olhem só quanta coisa eu pude perceber enquanto seguia o vendedor de limão. Impressionou-me o tempo que perdi em não me permitir ver além do que eu pensava ser o suficiente fazer em uma feira, comprar. Só comprar o que me interessava, sem levar em conta a criatividade, simplicidade e leveza do ambiente providenciado e mantido por essas pessoas que nos servem, simples assim!

Enfim, consegui me aproximar do vendedor de limão na outra extremidade da feira, e ele é lógico me ofereceu o seu produto. Comprei e sem pensar muito perguntei: “posso escrever sobre você?”. Ele me respondeu, “pode e eu já até sei que vai ser sobre eu não ter pernas, né?”. Eu então indaguei que não, queria falar sobre a sua alegria e do quanto ele mobilizava dava vida para aquela feira! Ele me olhou surpreso e perguntou se aquilo era verdade, animado, me respondeu: “Sério? Legal, tá valendo freguesa!”. Eu continuei, perguntei a ele como é seu nome. Ao final estendi a minha mão e ele, sem jeito pela luva suja, estendeu a dele. No ato de apertarmos nossas mãos, aproveitei para lhe dizer o meu nome e que em mim ele poderia encontrar uma amiga grata, caso ele quisesse. Na sua simplicidade ele me disse: “Tá valendo, dona Cátia.”

E assim ganhei um amigo inesperado. Percebi que olhar nem sempre é ver, então, sempre que posso vou a feiras- livres!

Para o início do ano que se aproxima, aproveito para pedir gentilmente que estejamos todos disponíveis para aprendermos a contemplar o que está vivo, o que respira, o ser humano incrivelmente surpreendente em todas as suas possibilidades! Aproveito também para ofertar aos seguidores do Rosa Valente toda a minha gratidão a essa gente linda!

Cátia Stockler Pureza.

“O essencial é invisível aos olhos…”.

(Trecho do livro O pequeno príncipe) Antoine De Saint- Saint- Exupéry.