Em um encontro esperado de confraternização e alegria estávamos nós, amigas a mesa de um restaurante conversando sobre assuntos variados, risadas, comidinha gostosa, atenção e disponíveis ao acolhimento que ali se apresentava. Entre o grupo estava presente uma pessoa que participava dos assuntos ouvindo atentamente e observando o ambiente, o prato escolhido e servido a ela. Essa especial senhora de setenta e sete anos, hoje com uma patologia neurológica confirmada que por vezes rouba sua memória de ação ou memória operacional como denominamos em psicologia e medicina, por tanto a fuga da memória tem se tornado constante. E em meio aos assuntos conversados cada uma de nós se lembrou de algum fato marcante ou importante de acontecimentos atuais, eventos sociais familiares, como estão sendo organizados nos dias de hoje, mais despojados e recordando como eram organizados há tempos atrás, com suas praxes, etiquetas, cerimoniais, vestuários entre outros, as exigências eram diferentes. De repente a memória mais antiga da senhora lembrou-se da construção da ponte RIO NITEROI, aquela que utilizamos para nos deslocar de carro do município do Rio para Niterói e outras regiões do outro lado da Baia de Guanabara e fez um relato de quando trabalhava como enfermeira em um hospital do Rio recebeu vários casos de acidentes com operários que trabalharam naquela obra, acidentes com ferimentos graves, lesões, episódios de desesperos e desajustes mentais, neurológicos causados por ar comprimido. Ficamos todas ouvindo com certo pesar e ao mesmo tempo em nossa memória tão saudável ajustando o acontecido com distância no tempo.

Mas, a senhora nos surpreendeu com uma fala ao final do relato, que falou alto no sentimento… Disse a senhora: “Acho que cada vez que alguém passasse pela aquela ponte deveria fazer uma oração na intenção dos que ali ficaram. para mim aquela obra da ponte Rio Niterói valeu muito mais que dinheiro, valeu vidas que o dinheiro jamais vai pagar!”.

E então me dei conta do que na verdade essa senhora com uma doença neurológica de memória comprometida evocou embutida em sua fala: o RESPEITO, um silencioso e valioso Respeito.

E nós, tão saudáveis, passamos por ali tantas vezes e nem nos damos conta dessa humanidade.

De certa forma o concreto pode estar vivo?

Fico me perguntando, quem está deficiente? Essa senhora ou eu?…

E continuamos, ao término do jantar tiramos fotos e eu espero que a foto da lembrança do nosso encontro e dessa senhora fique registrada na melhor máquina, minha memória.