Organizei minhas contas e realizei um sonho antigo, assinar o Clube de Leitura “Tag Livros – Experiências Literárias” [https://taglivros.com/]. Eu queria fazer parte desse clube desde o momento em que o descobri.

O plano anual custa R$ 62,00 mensais. “Nossa, Ingrid, que caro!”; Não é caro, não, gente. Vale a pena se você curte um livro físico e ainda por cima, assim como eu, ama ver a estante cheia deles! Todo mês vai chegar um livro surpresa na sua casa, um box colecionavel, um marcador de página, uma revista falando sobre o autor, sobre o curador daquele mês e o motivo da escolha do livro – além de uma prévia do livro do próximo mês, possibilitando a troca dele caso você já tenha lido, mas sem revelar o nome – e uma lembrança que tenha a ver com o livro ou com o momento do ano. E por que vale a pena? Por dois motivos. O primeiro deles é que você vai sair da sua zona de conforto de leituras e vai conhecer outros autores, outros gêneros, outros países e outras realidades

Eu, por exemplo, na primeira experiência saí da minha zona de literatura brasileira e biografias e cai de cara em Mercè Rodoreda da Catalunha (Espanha). Nunca tinha ouvido falar dela e a minha primeira caixa trouxe ela, a Guerra Civil Espanhola e “A Praça do Diamante”. O segundo motivo é a estética. O livro é uma edição exclusiva para assinantes da TAG! E é capa dura! Livro capa dura tem um charme a mais e você não encontra nas livrarias por menos de 40 reais.

Então você ganha um livro capa dura em edição exclusiva + box colecionavel + marcador de página + revista + lembrança (que em dezembro de 2017 foi uma agenda para 2018 e em Janeiro de 2018 foi um planner de mesa) + a experiência de expandir os horizontes como leitor por 62,00 REAIS. Para mim, compensou!

 

A autora:

Fiquei envergonhada por não conhecer Mercè Rodoreda, afinal, ela é considerada a escritora em língua catalã mais influente e já foi traduzida para mais de 40 idiomas. A principal marca de sua obra é a Guerra Civil Espanhola, visto sua formação no exílio republicano. Mas a obra de Rodoreda não conta apenas com romances, ela se dedicou também às poesias, contos e peças de teatro.

A escritora se casou com o seu tio, 14 anos mais velho, com quem teve um relacionamento difícil, e no exílio tornou-se amante, do também escritor catalão, Armand Obiols, que tinha outras amantes. Faleceu com 74 anos, em 1983, com mais de 20 obras publicadas e vítima de câncer no fígado.

– Mercè Rodoreda

 

O livro:

O livro se inicia em 1930 e percorre todo o período da Guerra Civil, tendo seu enredo finalizado em 1960. O livro é contado pela narradora-personagem, a protagonista, Natália, uma jovem que conhece um rapaz, Quimet, durante um baile na Praça do Diamante.

Apaixonada, Natália (que recebe o apelido de Colometa – pombinha em catalão), larga o seu noivo, Pere, para iniciar o romance com Quimet e é nesse momento que a protagonista é posta sob o sutil poder controlador do marido e passa por diversas mudanças, não só de personalidade, como físicas.

A chegada da Guerra muda um pouco a relação deles, agora uma família de 5: Colometa, Quimet, Antony, Rita e a criação de pombos. A pressão do casamento diminui com o alistamento de Quimet para adentrar às milícias paramilitares. A situação do relacionamento é modificada pelo conflito que gera fome, pobreza, solidão e medo.

A Guerra mostra que Colometa não é oprimida apenas pela sua condição de mulher, porém isso não é claro para a narradora. Todavia, o livro não trata do sofrimento de Natália e nem tem uma leitura densa e cansativa. É marcado pela oralidade e seus discursos direto-indireto – do qual eu sou extremamente amante.

“A Praça do Diamante conta uma história de amor, mesmo que não tenho um grão de sentimentalismo” – Mercè Rodoreda.

Ou seja, conta a história de Colometa e Quimet e o seu cotidiano. E só. Só tudo isso.

Uma marca interessantíssima que o livro trás é a inspiração em Kafka. Colometa é cercada de pombos do começo ao fim do livro. Ela é sufocada por eles à nível máximo e chega a chacoalhar os ovos para que não nasçam mais. A relação da personagem com o pombal existente na sua casa torna externo os sentimentos de Colometa, a confusão deles dentro do seu psicológico.

Outro ponto que aproxima nós leitores da história é o alto nível de descrição dos cenários. O livro se vale se cada detalhe das casas, a ponto de imaginar o todo o cenário, talvez exatamente como a autora, principalmente objetos que mostram a ideia de vida doméstica da protagonista: o quadro de lagostas, a cortina e o funil são alguns exemplos.

Quando digo que o livro se passa durante o período da Guerra Civil que acometeu a Espanha, não temos o cenário de guerra no livro, não temos os tanques, não temos as batalhas. O que nós temos é o contexto e as consequências da guerra que acontece no segundo plano do livro na vida de Colometa. A falta de dinheiro, a fome, o medo.

La Colometa, de Xavier Medina. Plaza del Diamante, Barcelona. Foto: Lídia Carbonell [http://lameva.barcelona.cat/gracia/ca/placa-del-diamant#]

“e dona Enriqueta dizia que a gente tinha muitas vidas, umas entrelaçadas às outras, mas que uma morte ou um casamento, às vezes, nem sempre, as separava, e a vida de verdade, livre de toda espécie de fios de vida pequena que haviam amarrado, podia viver como teria vivido sempre se as vidas pequenas e ruins a tivessem deixado sozinha. E dizia, as vidas entrelaçadas brigam entre si e nos martirizam e nós não sabemos nada, como não sabemos nada do trabalho do coração nem da grande inquietação dos intestinos…”

  • RODOREDA, Mercè. A Praça do Diamante. Companhia das Letras – Tag Livros. Ed. 2017. Brasil.